São muitas as injustiças sofridas por quem tem deficiência auditiva. Não é mole, viu? Decidi fazer uma compilação de vários momentos ‘ninguém merece’ pelos quais nós passamos, com o objetivo de fazer com que vocês lutem mais para abrir portas importantes de acessibilidade para nós, surdos que ouvem.
É impressionante perceber as diversas maneiras através das quais uma pessoa com deficiência auditiva – com o perdão da palavra – se ferra. Nenhuma outra deficiência é tão injustiçada quanto a nossa. Duvida? A versão original deste post foi escrita em 2012, ou seja, há 10 anos. De lá para cá, pouquíssima coisa mudou. As injustiças sofridas por quem tem deficiência auditiva continuam aí, do mesmo jeito.
Venha para o CLUBE DOS SURDOS QUE OUVEM – sócios do Clube têm acesso aos nossos grupos fechados no Facebook, WhatsApp e Telegram com milhares de pessoas com deficiência auditiva dos quatro cantos do Brasil.
As INJUSTIÇAS sofridas por quem tem DEFICIÊNCIA AUDITIVA
1. Capacitismo no Mercado de trabalho
Estamos condicionados às “vagas para PCDs” que, em sua maioria, oferecem salários baixíssimos e chance zero de progressão na carreira. O certo seria que todas as vagas fossem abertas a todas as pessoas, sem impedimento quando se tem uma deficiência, seja ela qual for. Mas o desconhecimento geral da nação, a hipocrisia da “diversidade e inculsão” e o medo dos gestores segue gigante. Algumas empresas (em geral, multinacionais de tecnologia) abrem suas vagas para todas as pessoas, sem exceção. As pessoas com deficiência auditiva que são reabilitadas pela tecnologia (usando aparelhos auditivos ou implante coclear) ouvem pérolas como: “Você não é deficiente o suficiente”, “Se você usasse Libras sua surdez apareceria mais”, “Você é muito qualificado, infelizmente”.
O capacitismo no mercado de trabalha continua cruel com as pessoas com deficiência auditiva, e tudo começa no processo seletivo:os recrutadores LIGAM, as entrevistas online não têm legendas e as empresas não se importam DE VERDADE em oferecer acessibilidade.
2. Assento preferencial no transporte público
A surdez é uma deficiência invisível. Muitas pessoas já perderam suas próteses auditivas no ônibus e no metrô após levarem um encontrão de alguém num vagão lotado. Muitas pessoas já foram assaltadas no transporte público e tiveram que dar adeus para suas próteses auditivas – os ladrões acham que é um super fone de ouvido. E por que isso acontece? Porque as placas que informam quem pode sentar nos assentos preferencias têm os símbolos de todos, menos o símbolo internacional de surdez. Assim, não conseguimos proteger nossas próteses e nem temos acesso ao nosso direito de fazê-lo. As pessoas acham que somos meros folgados querendo se sentar onde não pode.
E o pior: as pessoas sem deficiência se sentem no direito de julgar as pessoas com deficiência auditiva como se não “merecêssemos” sentar em um assento preferencial. Mal sabem elas que, ao perder nossas próteses, temos que voltar para a fila do SUS ou tirar um empréstimo bancário para conseguir comprar outras – ou então, ficamos sem ouvir e sem poder trabalhar.
3. O maldito “0800 especial”
O único modo de contato de muitos lugares para as pessoas com deficiência auditiva é aquela inutilidade chamada ‘0800 especial para deficientes auditivos e da fala‘. E o pior: isso continua existindo porque nenhum político se presta para atualizar essa lei bizarra. Telefone TDD é uma geringonça dinossáurica que custa uma fortuna e não ajuda NINGUÉM. O SAC ideal que oferece acessibilidade para TODOS os surdos possui chat, central com intérprete de libras de carne e osso e atendimento via WhatsApp e telefone.
4. Bancos
O deficiente auditivo abre conta num banco e paga as tarifas como qualquer cliente, mas não tem como se comunicar com o banco fora do horário de expediente, a não ser que cometa fraude pedindo para alguém fingir que é ele ao telefone. Hoje em dia, alguns gerentes ajudam via WhatsApp e outros têm chats com aqueles BOTS infernais que não ajudam quem tem deficiência auditiva.
Seguimos reféns do 0800 para solicitações e pepinos de todo tipo. Aí vem a pergunta: como alguém que NÃO ouve/entende ao telefone vai resolver um problema através de ligação telefônica? E como alguém que NÃO tem um inútil Telefone TDD em casa poderá se comunicar com o “0800 especial para deficientes auditivos e da fala?” SOCORRO!
5. Cartão de crédito
A pessoa com deficiência auditiva tem cartão de crédito, mas não tem como se comunicar com o mesmo a não ser através do telefone. Tudo o que escrevi sobre a injustiça com bancos também vale aqui. Cartões de crédito tem zero atendimento via chat ou email. Não é patético? E o pior: a FEBRABAN não faz NADA para mudar isso e obrigar as operadoras de cartão de crédito a oferecerem acessilidade para os clientes com deficiência auditiva.
6. Universidades e escolas
Você tem deficiência auditiva e decide cursar uma faculdade, mas não tem acessibilidade alguma. Ninguém nunca ouviu falar em sistema FM, aro magnético e legendas. As universidades querem enfiar goela abaixo um intérprete de Libras para quem NÃO usa língua de sinais – mal sabem eles que a maioria absoluta das pessoas com deficiência auditiva no Brasil não usa LIBRAS.
Durante a pandemia do Coronavírus, a falta de acessibilidade digital foi de escandalizar qualquer um: nenhum EAD possui ferramenta de legendagem ou tempo real ou oferece aulas legendadas. As escolas não estavam preparadas para oferecer acessibilidade digital aos alunos com deficiência auditiva.
Nas aulas presenciais, muitos professores da rede pública, doutrinado na “cartilha da surdez” (aquela palhaçada capacitista que diz que todo surdo usa libras, surdo ‘de verdade’ não usa aparelho auditivo e por aí vai”) se recusam a usar o Sistema FM (fornecido pelo próprio SUS) para que os alunos que usam aparelhos auditivos compreendam a fala no ambiente de ruído. Muitos professores ficam bravos se você pede para que eles falem de frente para poder fazer leitura labial. Entretanto, se solicitar um intérprete de língua de sinais, será prontamente atendido. Quem entende isso?
7. Filas prefereciais
A pessoa com deficiência auditiva vai enfrentar fila numa repartição pública, aeroporto, banco, supermercado ou loja, e quase sempre paga mico porque ou não tem aviso luminoso, ou tem mas não é usado. Pior: muitos de nós somos atacados por idosos e outras pessoas que não fazem ideia de que temos uma deficiência invisível e a lei nos garante o direito de estar ali. Experimente tentar ouvir seu nome num local cheio de ruído quando você não escuta ou escuta mal. Por isso, faça o seu RG de PCD e ande sempre com ele na carteira.
8. Aeroportos
O passageiro com deficiência auditiva vai pegar um avião, mas periga de perder o mesmo porque, quando trocam o voo de portão, cancelam ou alteram o horário, avisam pelo alto falante na maioria das vezes. Nenhum aeroporto tem aro magnético. As TVs dos aeroportos dão avisos com um avatar de Libras, mas é raríssimo ver qualquer coisa com legendas. A acessibilidade para surdos nos aeroportos ainda se resume àquele avatar de Libras que ajuda pouquíssimas pessoas.
9.Teatro
Se você tem deficiência auditiva e decide ir ao teatro, é quase certo que vá precisar criar os diálogos na sua própria cabeça. Acessibilidade? Bobagem, estão querendo demais. Encontrar um teatro que forneça alguma tecnologia de legendas em tempo real, talvez na próxima encarnação.
10. Saúde
Se você tem deficiência auditiva e inventa de enfartar sozinho em casa, vai chamar a ambulância como? Com a força do pensamento? Afinal, ambulâncias, bombeiros, SAMU, polícia e outros serviços de necessidade básica não atendem através de WhatsApp. Apenas através de ligação telefônica convencional. Como é que você pede socorro quando não consegue ouvir ao telefone? Isso é o cúmulo.
11. TV
Os canais pagos fechados (como GNT, Multishow, Globonews e Globoplay) simplesmente NÃO legendam sua programação, em pleno 2022. Se não fosse pelos serviços de streaming como Netflix, Amazon Prime e HBO, eu já teria desistido de televisão de uma vez por todas.
11. Cinema
Se você tem deficiência auditiva ev ai ao cinema assistir a um filme nacional que teve patrocínio estatal (o qual você ajudou a pagar com os seus impostos) vai se deparar com falta de legendas (mas a janela de Libras possivelmente estará lá). E os filmes infantis (desenhos animados) nunca têm legendas. Mesmo os filmes estrangeiros têm poucas sessões legendadas e, quando tem, são em horário impraticáveis – a maioria é dublada.
12. Cursinhos preparatórios
Se você tem deficiência auditiva e decide gastar uma grana fazendo cursinho preparatório para concursos, descobre que as aulas online não têm legendas simplesmente porque ninguém achou que isso seria necessário.
13. TV a cabo
Se você tem deficiência auditiva e resolve pagar caro por um plano de TV a cabo, sem aviso prévio, sem justificativa algma, descobre que a TV a cabo decidiu dublar os seus seriados favoritos. O problema não é a dublagem, mas sim a falta de opção de legenda, oras!
14.Aparelhos auditivos
Se você tem deficiência auditiva e quer comprar aparelhos auditivos novos e com tecnologia atual, se depara com preços que, definitivamente, não são deste mundo. Além disso, é obrigado a se render ao modelo de negócio da indústria da audição, que é o mesmo desde os anos 50 ou 60: você não tem a opção de comprar o produto separadado do serviço, e acaba pagando por serviços que sequer utiliza. Cadê o PROCON para defender o consumidor surdo?
15. Consultórios
Se você tem deficiência auditiva e quer marcar uma hora num consultório médico, se depara consultório com a falta de atendimento whatsapp da maioria deles. Ao chegar lá, fica na sala de espera aguardando e se depara com uma TV sem o closed caption ativado. Osso duro de roer… A cereja do bolo é a secretária berrando seu nome porque esqueceu que você é surdo.
16. Elevador
A pessoa com deficiência auditiva fica presa no elevador. Começa a rezar pro anjo da guarda, afinal, aro magnético em elevador no Brasil é uma coisa tão improvável quanto conseguir ganhar na MegaSena. Enquanto isso, nos EUA e na Europa, qualquer interfone tem aro magnético – afinal, 1,5 bilhão de pessoas no mundo têm algum grau de surdez.
17. Palestras e eventos
A pessoa com deficiência auditiva paga uma palestra bem cara para se atualizar profissionalmente. Chegando lá, descobre que não há nenhum tipo de acessibilidade para ele. Legendas? Ah, não.
18. Hotéis
Os hotéis não são acessíveis a pessoas com deficiência auditiva. O serviço de quarto só é feito pelo telefone. Não existe despertador vibratório. O balcão da recepção não possui aro magnético. A programação da TV não possui legendas.
19. Reuniões
As reunião no trabalho são tensas quando você tem deficiência auditiva. Se forem presenciais, os colegas costumam esquecer de falar de modo que você consiga fazer leitura labial, usam máscaras ou falam todos ao mesmo tempo. Se forem online, muitas vezes são utilizadas plataformas que não oferecem a possibilidade de legendas em tempo real.
20. Audiências
Se você tem deficiência auditiva, vai se deparar com um sistema judiciário que não oferece acessibilidade. Que nunca ouviu falar em serviço de estenotipia, mas vai te oferecer intérprete de Libras. Há pouco, no julgamento do caso do incêndio da boate Kiss, um advogado com deficiência auditiva foi ridicularizado publicamente pelos seus constantes pedidos para que repetissem o que era dito. Uma vergonha: o lugar que deveria garantir o nosso pleno acesso à acessibilidade não é acessível. Para eles, acessibilidade se resume à rampa de acesso para cadeirantes.
E então gente, de quais outros “momentos ninguém merece” eu esqueci?