O que você precisa saber sobre surdez, surdos e tecnologia? Bastante coisa! Saiba que, se for novato no assunto, vai se deparar com muitos discursos prontos, e meu conselho é bem simples: informe-se muito, agradeça as opiniões tendenciosas, desconfie de comentários terroristas e tire suas próprias conclusões.
O básico do básico é que não existe uma categoria de surdos na qual todas as pessoas que não ouvem ou ouvem mal se enquadram. Pelo contrário, você vai é ficar surpreso com as infinitas possibilidades existentes.
Nesses onze anos de Crônicas da Surdez aprendi, aos trancos e barrancos, que algumas pessoas se sentem ‘donas’ do assunto surdez e ficam absolutamente furiosas com quem ousa mostrar as outras possibilidades de um mesmo tema.
Não foram poucas as vezes em que fui educadamente convidada a calar a boca, e foram muitas as vezes em que tentaram me silenciar usando de artimanhas de baixo nível – enxurradas de emails com ameaças, vídeos toscos me detonando no YouTube, mensagens de baixo calão, entre outras perdas de tempo.
Só que eu sou a maior entusiasta da reabilitação auditiva e um bom exemplo do que ela é capaz de fazer na vida de uma pessoa com surdez profunda.
Aproveito cada convite que recebo falar sobre a existência dos surdos oralizados. Por incrível que pareça, quando se fala em surdez a tendência é ficar em cima do muro pois, segundo muitos, o assunto é polêmico.
Discordo veementemente disso!
Eu sou surda, e vou falar sobre surdez quando bem entender. De polêmico, o assunto não tem nada – o que existe é uma aura de territorialismo infantil sobre ele que as pessoas sentem medo de ‘quebrar’. Não só não tenho medo como também faço questão.
Geralmente tenho que ouvir pérolas estilo “Surdo que é surdo usa Libras!” quando explico que existem 1,5 BILHÃO de pessoas de pessoas no mundo que têm algum grau de surdez, falam, escrevem e usam a tecnologia para voltar ao mundo dos sons.
Ou, pior, aquela papagaiada chata de que “surdo de verdade é aquele que nunca ouviu nada, o resto é deficiente auditivo se achando surdo“. Juro que às vezes até me dá vontade de desistir diante de tanta asneira repetida que ouço e leio.
A pior, disparada, é a clássica “existem Surdos e surdos” – como se um caps lock elevasse a um patamar espiritual superior aqueles que usam a santíssima língua de sinais. É capacitismo reverso que chama? Tipo:
Não tenho nada contra a língua de sinais – quando me acusam disso fico pensando o que eu poderia ter contra uma língua? Aliás, que acusação tediosa.
Meu problema é com os seguintes pontos bem específicos:
- Divulgar a língua de sinais como A língua dos surdos: quem insiste em fazer isso presta um desserviço a quem é surdo e não usa Libras. Já perdi as contas de quantas vezes precisei explicar para alguém ao vivo que sou surda, falo, não uso Libras e escuto com dois implantes – e passar por mentirosa, pois as pessoas olham e dizem ‘como você pode ser surda se não gesticula?‘. Chega de generalização…A língua de sinais é uma língua como qualquer outra, usada por uma parte das pessoas que não escutam. Daí ser transformada falsamente numa língua que qualquer surdo nasce sabendo ou tem obrigação de saber, são outros quinhentos…
- Divulgar Libras como a única acessibilidade para surdos: Se eu for a um evento ou palestra que tiver intérprete de Libras e depender disso para entender algo, não vou entender nada. A língua de sinais NÃO SUBSTITUI A MODALIDADE ESCRITA DA LÍNGUA PORTUGUESA. Coloquei em Caps Lock por dois motivos. Primeiro, para os que amam citar a lei de Libras e esquecem de ler esse parágrafo importantíssimo. Segundo, porque ela é acessibilidade para surdos sinalizados, e surdos oralizados também existem e precisam de legendas. Tão simples. Acessibilidade total, já ouviram falar? 😉
Quando me inscrevi num curso para aprender Libras, fui imediatamente tratada como intrusa ao perceberem que eu usava aparelhos auditivos. Nessa época (2002) eu estava saindo do armário da surdez e decidi fazer meu TCC em Ciências Sociais sobre a escolha da modalidade linguística pelas famílias das crianças surdas.
E, como todo marinheiro de primeira viagem, me deparei apenas com bibliografias escritas por ouvintes sobre ‘estudos surdos’, ‘ouvintismo’ e outras expressões que, hoje, não fazem o menor sentido para mim, mas que há 13 anos atrás pareciam ser as respostas para as minhas perguntas. Santa inocência…
Quando não temos motivo para nos aprofundar num assunto específico, é claro que aceitaremos a sabedoria popular como verdadeira.
É por isso que quem nunca topou com um surdo (oralizado ou sinalizado) e nunca conviveu com algum grau de deficiência auditiva acaba acatando algumas frases ditas por aí. Tais como:
- todo surdo usa ou ‘tem que usar’ língua de sinais
- todo surdo é mudo
- todo surdo estuda em escola especial
- todo surdo precisa de intérprete
- todo surdo vive em contato com a comunidade surda e tem cultura própria
- se não escuta é porque Deus quis assim e assim deve ser
- a língua de sinais é a língua natural dos surdos
Os desavisados, até entendo, mas quando leio reportagens falando sobre surdos e surdez nestes termos, socorro.
Por que? Porque é uma grande mentira. Porque a surdez é a deficiência mais heterogênea que existe. Porque a política pública de reabilitação auditiva disponível no Brasil é excelente se comparada até com grandes potências mundiais. Então, minha gente, já passou da hora de jogar limpo e expor a coisa como ela é, não acham?
Sendo assim, vamos falar sobre o que vem acontecendo no mundo. Em países desenvolvidos, um grande número (que cada vez cresce mais) das crianças nascidas hoje com surdez e diagnosticadas precocemente são reabilitadas com aparelhos auditivos e implantes cocleares.
PAUSA: No Brasil, muita gente se sente no direito de julgar as escolhas das famílias no que diz respeito a surdez e reabilitação auditiva. Até papo do tipo “violar o corpo infantil” rola como argumento por aqueles que são contra o implante coclear ou o uso de aparelhos auditivos em…outras pessoas! Bizarro.
Seguimos!
A The Alexander Graham Bell Association for the Deaf and Hard of Hearing deu uma resposta muito verdadeira e inteligente a um artigo publicado no Journal of the American Academy of Pediatrics, “Should All Deaf Children Learn Sign Language? (Todas as crianças surdas deveriam aprender língua de sinais?).
Parece que, pela primeira vez, alguém teve peito de desafiar o politicamente correto – e dizer o que muitos pensam, mas não têm coragem de dizer.
“ASL is unnecessary in many, if not the majority of, cases of a child born today with hearing loss who has the benefit of early identification, early amplification and good intervention,” said Meredith Sugar, Esq., AG Bell President.”
(A língua americana de sinais não é necessária em muitos, senão na grande maioria, dos casos de crianças nascidas hoje com deficiência auditiva que tiveram o benefício do diagnóstico precoce, amplificação precoce e boa intervenção”, disse a presidente da AGBEll, Meredith Sugar)
Falando em desafiar o politicamente correto, isso me faz lembrar de uma pesquisa feita por uma audiologista num congresso a que fui em Washington.
Ela dizia que países desenvolvidos estão focando em mostrar, em números, o custo para o Estado, ao longo da vida, de um surdo reabilitado e o de um surdo não reabilitado.
A turma anti-tecnologia, que costuma usar o argumento de que “AASI’s e IC’s são caríssimos“, precisava ter acesso a isso.
É só uma questão de fazer as contas sobre quanto custa de depender do Estado a vida toda e quanto custa não depender – vide aposentadoria por invalidez, benefícios e várias outras coisas.
A única coisa que eu, você ou qualquer pessoa temos a ver com as escolhas linguísticas alheias é uma obrigação moral, sempre que nos for solicitado, de mostrar TODAS as opções, prós e contras no tocante às possibilidades de comunicação de uma pessoa que não ouve ou ouve mal.
E quais são? Língua de sinais, língua oral ou ambas.
A utilidade de cada uma varia caso a caso, pessoa por pessoa. Costumo dizer que por trás de cada caso de deficiência auditiva existe um ser humano, uma família, uma condição socioeconômica, pais ausentes ou presentes, amigos, escola e professores.
Às vezes uma criança faz um IC, o resultado não é bom e ela se encontra na Libras. Nas vezes em que as crianças fazem IC e têm um resultado fantástico, a Libras não tem muita utilidade nas suas vidas. Às vezes pessoas com resultados muito bons com IC ou AASI optam por aprender Libras. Às vezes usuários de Libras que têm muita vontade de saber como é ouvir partem pro IC mesmo sabendo que poderão não ter um resultado bacana e se encantam com o resultado que conseguem.
Não existe 2 + 2 = 4 quando falamos de surdez
Esse negócio do ‘tem que’ é que eu abomino.
Cada um faça o que bem entender, levando em conta as consequências das suas escolhas. Exemplo típico: pais surdos de bebês surdos que dizem que não darão ao seu filho a chance de ouvir pois ele é quem deve decidir quando for adulto devem ter consciência de que o estão privando desta escolha futura, já que a precocidade é fator fundamental de sucesso no IC.
Ninguém deixa de ser surdo ou deixa de ser capaz de aprender Libras ao optar pela reabilitação auditiva.
Aos terroristas de plantão: se informem melhor. E parem de espalhar por aí que implante coclear explode o cérebro que chega a dar vergonha ler/ouvir tamanha besteira – tão feio assustar pais fragilizados com mentiras como essas…
Em 2012, eu disse o seguinte: ‘Todo o meu respeito por quem exalta as diferenças, e todo o meu desprezo por quem finge que elas não existem’.
Em 2021, quero reformular a frase: todo o meu respeito por quem assume a existência das diferenças e não mete o bedelho nas escolhas alheias.
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