Crônicas da Surdez Relatos de Pessoas com Deficiência Auditiva

Como vencer a VERGONHA da DEFICIÊNCIA AUDITIVA

Falar abertamente sobre deficiência auditiva é tão natural para mim que acho estranho quando alguém me cumprimenta por ter essa ‘coragem’. Depois de algum tempo escrevendo aqui no Crônicas da Surdez, posso dizer que há uma coisa que me deixa MUITO triste: a quantidade de pessoas que morrem de vergonha da própria deficiência auditiva. Eu sei sei muito bem que cada um de nós tem o seu próprio tempo para superar essa fase porque já passei por isso. Sei o quanto os sentimentos são confusos e o quanto é difícil de aceitar de verdade o diagnóstico de perda auditiva.

Somos privados do sentido que controla a maior parte da comunicação. Por isso penso que falar com naturalidade sobre a nossa deficiência é algo crucial na formação do nosso caráter – não apenas como ‘pessoas com deficiência’, mas especialmente como seres humanos. Temos a obrigação moral – por nós e pelas gerações futuras – de agir como disseminadores de informação. E como fazer isso sentindo vergonha de si mesmo? Impossível. PS: as aulas do curso Saia do Armário da Surdez podem transformar a sua vida.

VERGONHA DA DEFICIÊNCIA

Crianças: elas só vão sentir vergonha se aprenderem em casa que devem se sentir mal por isso. Acho crucial que os pais falem sobre o assunto com os seus filhos  sem pudores, preparando-os para enfrentar as perguntas e os olhares alheios. É uma pena que nem todos os pais de crianças sem deficiência ensinem a elas que as diferenças existem e devem ser respeitadas, e isso só contribui para o bullying que acontece nas escolas. Super proteger uma criança surda só a torna despreparada para lidar com o mundo real – fora da segurança do lar as coisas não só podem ser como são diferentes. Assim como existem adultos cruéis, existem crianças ainda mais cruéis que eles. Nunca esqueço de uma amiga que me contou que, num vôo dentro dos Estados Unidos, havia uma garotinha surda usando aparelhos auditivos sentada ao seu lado. As duas engataram um papo e minha amiga ficou maravilhada ao perceber o orgulho que a garotinha sentia dos seus aparelhos! Ela contou até que podia ‘vesti-los’ com a cor que quisesse, e escolhia a roupa que ia vestir no dia só depois de decidir que cor colocaria nos AASI. Olha só que fofa!! Com certeza que foram os seus pais que a ensinaram a ter orgulho de si. Não consigo aceitar a idéia de pais que tentam esconder a todo custo a deficiência auditiva do filho. Penso que isso é um ato cruel. Uma violência. PS: esse post foi originalmente escrito em 2011, quando eu ainda não sabia o que era capacitismo.

Adolescentes: essa fase da vida é complicada por si só. Na adolescência, as interações sociais se intensificam, e quem não escuta tem duas opções: ou se retrai (e assim corre o risco de entrar em depressão ou ser do tipo anti-social) ou se expande (não deixando que a frustração de não ouvir o afaste das pessoas).

Adultos: que tipo de mensagem um adulto surdo passa para seus filhos ao sentir vergonha de não ouvir? Ao se trancar em casa por medo de ser ridicularizado? Pensem comigo: ser adulto é saber se defender quando necessário. É sentir orgulho das suas lutas e conquistas diárias. A surdez está fora do nosso controle e não é um defeito de caráter.

A quantidade de mensagens que recebo pedindo ‘dicas de como esconder a surdez do namorado‘, ‘dicas de como esconder os aparelhos auditivos‘, ‘dicas de o que fazer para que as pessoas não notem que eu não escuto‘ e afins não tá no gibi. Eu jamais escreveria posts sobre isso, até porque meu lema é: ESCANCARE! Não há como disfarçar o indisfarçável. Perder tempo e energia com isso é absolutamente patético.

Sentir vergonha da deficiência é sentir medo

Medo de ser ridicularizado, medo de não conseguir se comunicar. Medo do outro. Mas é preciso ter em mente que esse outro não sabe nada de nós, e, se nos causa algum desconforto, isso pode acontecer até sem intenção. A falta de informação faz com que as pessoas tenham atitudes que nos magoam. Mas como um ouvinte pode saber a maneira perfeita de lidar com uma pessoa com deficiência auditiva se nunca precisou lidar com uma ou se informar sobre o assunto?

É aí que entramos como disseminadores de informação. Numa interação social entre um ouvinte e um surdo que morre vergonha da surdez, o que o ouvinte aprende? Nada!!! Mas no momento em que se relaciona com um surdo que está confortável com a sua deficiência e ainda desvenda esse ‘mistério’ para ele, o ouvinte enxerga tudo sob outro prisma e ainda passa a atuar como outro disseminador de informação. Acho isso maravilhoso, e todos nós deveríamos praticar diariamente essa autoadvocacia que se multiplica infinitamente.

Desde que superei essa fase e comecei a falar sobre o assunto surdez com todo mundo que conheço, muitos amigos, colegas, conhecidos e até familiares passaram a me tratar de outra forma. De igual para igual. Com respeito. E educação. Sem aquele constrangimento que deriva do fato de que não se pode tocar no assunto – ou porque o surdo não gosta, ou porque sente vergonha.

Alguns podem pensar: “Porque falar sobre isso?“. Ora bolas, POR QUE NÃO FALAR? Você não enxerga beleza nas diferenças? Você não entende que ninguém está livre de vir a perder (uma parte da) audição em alguma altura da vida?

Você não quer usar aparelhos auditivos porque eles são grandes? Acho que você devia agradecer aos céus por existir uma tecnologia que lhe ajude a escutar em vez de se importar com os olhares dos outros.

Você tem vergonha do seu marido/mulher por ser surdo? Acho que você devia fazer com que seu marido/mulher sinta orgulho de você ao perceber que você se orgulha de ser quem é, afinal, impossível que ele/ela seja uma pessoa perfeita.

Você se esforça ao máximo para que os outros não percebam que você não escuta? Tenho certeza que sua máscara cai a cada “Hãn?” que você precisa dizer quando se distrai por dois minutos.

Você penteia os cabelos da sua filha surda de modo que eles tapem os aparelhos auditivos para que os coleguinhas não vejam? Acho que você deveria procurar um psicólogo o mais rápido possível. Isso é capacitismo, e seu filho não precisa desse veneno na vida dele.

Você ensina ao seu filho surdo que quando um colega o chama de surdo ou toca no assunto surdez com ele, isso é uma grande ofensa? Acho que você vai chorar muito quando constatar que contribuiu tremendamente na criação de um ser humano com autoestima nula.

Você se sente mal quando seu namorado/namorada fica sem graça porque outras pessoas descobriram que você é surdo(a)? Faça um favor a si mesmo e troque de namorado(a) o quanto antes. Quem quer se relacionar com alguém que faz com que a gente se sinta mal? Credo!

Você só vai usar aparelhos auditivos se eles forem tão pequenos que nem têm potência para ajudar o grau da sua perda? Não perca seu tempo, continue no silêncio.

Pareci agressiva ali em cima? Esse foi o objetivo. Quem lê este blog são adultos – e de adultos, o mínimo que se espera é maturidade. Você precisa se sentir bem na sua própria pele, identificar os seus fantasmas pessoais e fazer todo o esforço do mundo para acabar com eles.

SENTIR VERGONHA DA SURDEZ É UMA VERGONHA

A gente é diferente. E daí? Temos que jogar com as cartas que temos em vez de passar longos anos lamentando a falta das cartas que gostaríamos de ter. A vida é curta. A hora de parar de ter vergonha de ser surdo é agora.Vamos inverter a lógica cultural brasileira, que pensa que todo PCD é um coitado incapaz que deveria se esconder num buraco??

Pense nisso – mas pense mesmo e analise o seu comportamento com um olhar BEM crítico. Tudo isso que escrevi é o que eu gostaria que alguém tivesse me dito quando eu descobri a minha surdez.

CONSELHOS de pessoas surdas sobre a vergonha da surdez

Aqui estão alguns conselhos sobre sentir vergonha da deficiência auditiva que coletei entre os membros do Clube dos Surdos Que Ouvem:

“Fica tudo mais fácil quando a pessoa que está com você (namorado, marido…) entende a seriedade do problema e ajuda em vez de atrapalhar. Talvez você tenha que explicar para ele o que você consegue ouvir (entender, porque ouvir você ouve) para que ele entenda de uma vez por todas. Eu já uso aparelho há mais de uma década e no início tentava esconder, como todo mundo. Usava o cabelo sempre solto e nunca retirava o aparelho na presença de outras pessoas. Foi quando a audição piorou e eu precisei dizer que não estava conseguindo compreender o que as pessoas diziam (mesmo usando aparelho auditivo) que decidi assumir minha deficiência. Foi libertador! Hoje uso o cabelo preso o tempo todo e não estou nem aí para o que as pessoas possam pensar/dizer. Aliás, as pessoas até têm o direito de estranhar e a ignorância no que diz respeito à surdez é compreensível. Da próxima vez que ouvir este tipo de comentário, tire o aparelho e mostre à pessoa. Assim, ela vai se sentir mais constrangida que você. Nunca se envergonhe da sua deficiência. Sabia que somos mais de 10 milhões, só no Brasil?! Fazer parte de grupos de apoio, como este, ajudam bastante também. Nada de ficar deprimida. Erga a cabeça e assuma a sua deficiência, agradecendo todos os dias pelo que você consegue ouvir.”

“Eu não consigo entender como as pessoas sentem essa dificuldade de expor a sua surdez. Eu sempre enfrentei com cara e coragem, mesmo reclamando das minhas limitações, da minha timidez e das dificuldades encontradas no caminho, nunca senti vergonha da minha perda auditiva e nem do uso do meus aparelhos auditivos. Nesta questão sou bem resolvida. Sou surda de nascença e tenho somente raiva por não ter acessibilidade para eu poder resolver as minhas coisas com certa autonomia sem depender de ninguém. Não aceito a minha deficiência pois à partir dessa aceitação é entrar no conformismo deixando que o mundo te conduzindo à sua maneira. Não mesmo! Eu apenas tenho essa deficiência e tento vencer dia após dia enfrentando a vida com cara e coragem sem medo de ser feliz, estando com pessoas que realmente gostam ou me amam de verdade. Bjs e torço para que tu sejas feliz se amando do jeitinho que és!”
“As pessoas ainda desconhecem a surdez, os aparelhos, implante…sempre perguntam, em todo lugar é uma aula de como perdi a audição, sou surda mas ouço com aparelho, n ouço tudo mas c leitura labial. Perguntam tudo e mais um pouco. O que me incomodou muito desde a perda e não ouvir, falar alto, ou a pessoa falar eu entender errado, estar boiando, isso me incomoda muito,e algumas situações que depende de alguém além de ver algumas pessoas e situações de preconceito. Mas a perda, que foi muito difícil pra mim n demorei a aceitar. Pq é um fato de qual n posso mudar, eu sou bem desenrolada. Mas acho que vc procura tratar depressão e esses bloqueios pq n faz bem. Contorne a situação. E põe seus medos pra correr. E tente viver de forma q n se isole, e tbm n te faça mal. Eu evito alguma situação se não for legal. N forço.”
“Curiosidade sobre aparelhos é normal entre os ouvintes, é como qualquer outra curiosidade! Primeiro se aceite, se jogue na situação, vc é surda usa aparelho que mal tem nisso?! Todos mas todos tem suas dificuldades vc não é melhor ou pior que ninguém, as vzs o preconceito começa com nós mesmos! Eu desencanei disso de ter medo, sou aberta a falar sobre o assunto, e qdo a outra pessoa vê que vc lida com isso tão bem, deixa de ser uma coisa de outro mundo! Vc não se resume em audição, vc é um mundo todo pra se descobrir! Se aceite e seja feliz e ligue o foda-se rs!”
“Vejo que vc trava uma luta na auto aceitação, sugiro que faça uma terapia com um profissional logo que possível e te ajudar nessa questão. A audição não vai voltar, isso é fato, e vc está se limitando a viver e vivenciar momentos maravilhosos por que não aceita isso.”
“Eu diria que era um chip vindo dos aliens, fantasia futurista de carnaval, chip da mulher biônica… Leve na esportiva, DANEM-SE os outros.
Surdez não te priva de bons momentos. Aproveite-os com seus amados!”
“Se vc se aceitar , tudo flui com naturalidade. Antes quando era mais jovem tinha vergonha escondia o aparelho com o cabelo. Hoje em dia todos amigos, família , sabem que uso aparelho , e no primeiro momento a pessoa até sente do pergunta mas depois não e novidade , ninguém nem comenta. Saio com. Cabelo preso aparelho aparecendo. Com a idade a gente pouco se importa com oque os outros vão pensar. Se aceite que tudo melhora”
“Nenhum de nós, seres humanos, é perfeito! TODOS temos diferenças e isso nos faz únicos. Prá mim, a melhor estratégia para evitar constrangimento é deixar claro que sou deficiente auditiva. Às vezes as pessoas perguntam porque desconhecem as coisas. Isso faz parte e não quer dizer necessariamente, que queiram nos constranger Ninguém é obrigado a saber de tudo sobre tudo! E quando a gente explica, pronto! As pessoas entendem e tem até as que passam a nos admirar pela forma natural que encaramos nossa deficiência. Por favor, não se afaste das pessoas! Não deixe sua vida passar por você! Isso seria muito triste! Pense nisso!”
“Numa situação dessas eu dou uma aula sobre surdez, mostro o aparelho, explico como funciona, já aproveito para dizer que sempre cuidem em falar comigo de frente que não adianta falar de lado, muito menos cochichar no meu ouvido. Já fiz tanto isso que hoje todos que convivem comigo sabem que eu posso entender errado, posso não entender alguma coisa, que determinados restaurantes nem convidem que não vou ( tem uma pizzaria com teto baixo e é impossível ouvir alguém) , enfim, se o preconceito começar por você vai tornar tudo mais difícil. Todos os meus amigos sabem como conviver comigo. O mais legal é explicar para crianças, vai desmistificando desde pequenos e ensinando a lidar com a diversidade na escola caso se deparem com um coleguinha que use aparelhos.”
“Essas situacoes sao presentes para vc aprender a lidar com a sua surdez de forma serena e adulta. Fugir de perguntas ou ter pavor delas nao e o caminho. A maioria das pessoas nao sabe NADA sobre surdez, se vc nao estiver disposta a ensinar, como aprenderão? A curiosidade das pessoas é natural. Dica de leitura: o livro Saia do Armario da Surdez. As perguntas e olhares nos acompanharao durante toda a vida, e somos nós que escolhemos como lidar com eles. Faça a escolha sábia.”
** esse post foi originalmente escrito em 2011 e foi feito um UPDATE em 2023.

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