Relatos de Pessoas com Deficiência Auditiva

Uma jornalista com deficiência auditiva

*depoimento de uma leitora

“Sou jornalista e leitora do Crônicas desde que o blog foi criado. Não sou completamente surda, mas tenho zumbido e perdi parte da audição do ouvido esquerdo há seis anos. Do nada, um dia acordei e não ouvia mais as entrevistas. As palavras viraram sussurros para mim. Passei por uma dezena de médicos, que até acharam outras doenças “de brinde”, mas nada que explicasse o motivo daquilo ou se era possível tratar. Só suspeitas e possibilidades.

De lá para cá, me acostumei a fazer entrevistas por telefone com o ouvido direito e a me posicionar ao falar com as fontes sempre de modo que nada afetasse a compreensão das informações. Nunca tive problemas com os entrevistados, já que perguntar é fundamental na minha profissão.

O convívio com as pessoas fora do expediente, ao contrário, pode ser um pouco complicado. Tenho que pedir para falarem do lado do “ouvido que escuta”, lidar com piadinhas, com gente que se irrita ao ter que repetir as coisas ou me ver chegar mais perto para ouvir a informação com clareza. Muitas vezes ouvi que “só escuto quando quero”, o que me deixa chateada, claro. As pessoas não entendem que lidar com um som irritante o tempo todo exige atenção para se ouvir além dele. E para se desligar também. E nem sempre dá para manter a concentração no que todos dizem.

Em todos os lugares que trabalhei tive respeito e não fui julgada por esta condição, mas pela qualidade do meu trabalho. Hoje, estou em uma nova cidade – mil vezes mais barulhenta que a anterior –, me adaptando à realidade e aos seus sons. Conhecendo gente nova e lidando com as minhas limitações em um novo contexto. Confesso que o medo de ouvir ainda menos me acompanha e a idéia de perder a audição do lado direito, também. Estou sempre preocupada que isso possa acontecer.

Já pensei em usar aparelho auditivo, mas a cada médico é a mesma história: “tu não és surda o suficiente para isso.” Mas, só quem passa por isso sabe o quanto é frustrante querer ouvir algo e não conseguir. Ou escutar as pessoas falando e não conseguir entender. Ou ainda, entender uma coisa e a pessoa ter dito outra.

Espero ter contribuído e desejo longa vida ao Crônicas!”

Nota minha: se você tiver a oportunidade, procure um fonoaudiólogo e faça um teste domiciliar com um aparelho auditivo. Eu tenho zumbido ininterrupto nos dois ouvidos desde criança e te digo que, por experiência própria, aprendi que usar meus aparelhos tira totalmente a minha atenção do zumbido. O cérebro presta atenção nos outros sons e ‘esqueço’ do zumbido quando estou de aparelho. Nunca vi isso de alguém dizer ‘tu não é surda o suficiente’. Confesso que achei estranho. O médico te dá o diagnóstico, mas o fonoaudiólogo é que te avalia para o uso de aparelho. E existem aparelhos para todos os tipos de perdas auditivas – talvez, com o uso de um, tu não precise mais ficar dependendo do teu ouvido ‘bom’! Não custa ver isso! 😉

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