Esses dias estava pensando sobre como o que eu sofri poderia servir para ajudar o próximo, então, antes de dormir ontem pensei em fazer um depoimento para ver se conseguiria ajudar ou acolher alguém que fosse ler este artigo. Meu nome é Nazle, tenho 23 anos e possuo uma doença chamada neurofibromatose tipo II, ela é caracterizada por cistos subcutâneos em todo o corpo, mas sua principal característica são estes que se formam no canal auditivo.
Quando possuía 19 anos, descobri que tinha um neurinoma do acústico bilateral, fiz uma cirurgia na qual a possibilidade de dar errado era muito maior que de dar certo, como sequela perdi a minha audição do lado esquerdo e também fiquei com paralisia facial, foi quando comecei a perceber o quanto o ser humano não está preparado para lidar com adversidades.
Por eu possuir um rosto “torto”, as pessoas me olhavam como se eu fosse um monstro e muitas vezes escutei comentários a respeito disso, me magoaram muito, mas foi aí que comecei a perceber o quanto eu deveria ser o oposto e ajudar as pessoas que possuíam “defeitos” – a falta dessa sensibilidade machuca a todos que o possuem.
Conseguia ter vida normal, pois ainda possuía audição do lado direito, então fazia tudo, tanto que ninguém percebia que eu escutava apenas de um lado. Mas como meu neurinoma continuava a crescer, meu médico disse que eu deveria tomar alguma providência, pois poderia ter que passar pela mesma cirurgia e perderia totalmente a minha audição. Então fiz um tratamento chamado Radiocirurgia Estereotática, em que a intenção era fazer o tumor parar de crescer e preservar a minha audição. 4 meses após o término do tratamento, acordei um dia escutando menos e a percepção do som diminuiu drasticamente, durante 3 dias perdi a minha audição totalmente, não escutava absolutamente NADA. Meu médico disse que poderia ser um efeito da rádio, mas que com sorte e fé voltaria minha audição.
Faz 8 meses que eu fiquei surda
Vou explicar o que eu realmente sinto e também as adaptações que precisei para me incluir nesse novo cotidiano. Primeiramente percebi, e isso foi o mais importante, que as pessoas não tem noção de como lidar um surdo, apenas 3 pessoas que me atenderam em 8 meses conseguiram decentemente me prover um atendimento, escrevendo e fazendo gestos. Acreditem, os outros gritavam, falavam rápido e repetiam infinitas vezes achando que eu conseguiria entender, esse é o ponto mais importante, ao qual o leitor deve ficar atento, se você entrou em contato com um surdo, faça gestos, escreva ou fale devagar, articule bem os lábios, essas poucas coisas fazem com que o surdo consiga manter uma comunicação de maneira hábil.
Segundo ponto que eu percebi foi a falta de humanidade de certas pessoas, eu sou uma estudante que presta Medicina, após a surdez fui até um cursinho e eles não me aceitaram pela minha condição, pois eu atrapalharia a aula e o rendimento de uma sala. Sim, isso foi uma das coisas que mais me doeram. Essa exclusão foi um dos motivos de ter revoltado em perder a audição, saber que não seria mais uma aluna normal.
Terceiro ponto é um desabafo, caro leitor, eu era uma pessoa extremamente social, adorava conversar com todos, ouvia música o dia todo do mesmo modo que tocava alguns instrumentos, dialogar fazia parte da minha personalidade. Hoje mudei tudo ao qual eu estava acostumada, pois como deficiente auditiva não consigo mais fazer esse tipo de coisa. A minha sorte é ter ao meu lado pessoas maravilhosas que têm paciência e compreensão comigo, que eu nunca imaginei que iria receber – eles sempre me levantam e me ajudam a sorrir um pouco para enfrentar esse momento de transição difícil.
Não existe um dia em que eu não chore escondido, pois não quero que ninguém veja o quanto eu sofro, penso sobre tudo que acontece em minha vida e no quanto eu vejo pessoas desperdiçarem sua saúde, seu estudo, suas vidas por causa de irresponsabilidade. Meu amigo que está lendo isso, você já fez alguém sorrir hoje? Já pensou em ir ajudar alguma ONG ou instituição para ver pessoas felizes? Já pensou que, se amanhã você for morrer, você vai deixar sua vida sem pendências e morrerá feliz?
Eu já vivi a sensação de ir para uma sala de cirurgia e não saber se iria sobrevier, de me despedir dos mais próximos, pedir para doar meus órgãos, e sabe a conclusão a qual eu cheguei? Do tanto que eu desperdicei minha vida e o quanto morreria triste por ter perdido tantas chances de felicidade minha e do próximo.
O que eu aprendi com a surdez?
Que devemos nos importar com as pessoas, buscar a nossa felicidade acima de tudo, ajudar a todos que necessitam, principalmente pessoas com deficiência, que são excluídas da sociedade, e o mais importante, dê valor aos seus sentidos!
Você já imaginou ficar sem escutar como eu de um dia para o outro? Ou até mesmo ficar cego? Que tal agora você escutar sua música favorita e depois assistir ao seu filme favorito, e refletir se o que você está fazendo da sua vida agora é o que te faz feliz e começar a dar valor para as suas oportunidades.
Não seja do tipo que só dá valor quando perde, esta é minha mensagem, aproveite e melhore todos os dias, seja o exemplo bom pra alguém.
A surdez me mostrou o quanto o ser humano ainda está atrasado em relação à humanidade. Obrigada pela sua atenção e, por favor, escute a sua música favorita agora e pense como se fosse a última vez, pessoas que sofreram como eu dariam tudo por uma última música.
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