‘Oi Paula, meu nome é “X”, sou ouvinte mas meu namorado é surdo. O que vou falar agora, acho que foge um pouco que você está acostumada a relatar no seu blog, mas como leio tudo que você escreve desde que conheci “Y” e entrei nesse mundo completamente novo, te considero já como uma amiga, mesmo sem nunca ter visto você realmente. Li aquele texto que você escreveu (e descreveu perfeitamente) sobre como a surdez afeta os relacionamentos.
O “Y” se recusa a usar porque diz se achar ‘feio’ com os aparelhos auditivos, o que me deixa muito revoltada e muito frustrada também. Gostaria de poder dizer que o aceito ele da forma que ele é, aceito a surdez, mas se eu falasse isso, estaria mentindo, porque não aceito e mudaria isso nele se tivesse a chance.
Você sabe como é bom ouvir, e desde que conheci ele passei a dar mais valor a cada som, eu gostaria tanto que ele compartilhasse a felicidade de ouvir comigo. Estou aqui te contando essas coisas e também desabafando porque eu não tenho com quem falar, meus ‘amigos’ sempre ficam rindo quando falo do “Y” com eles, pelo fato dele ser surdo.
O “Y” sempre desconta muito suas frustrações em mim, ele usa Libras para se comunicar, mas eu não aprendi ainda, o que ele não entende é que Libras é outra língua, outra forma mais difícil ainda de “falar” e ele espera que eu aprenda de uma hora pra outra. Me desculpa se estou falando coisas que talvez você ache besteira, eu só queria que ele entendesse como tudo isso me magoa, como tudo isso é difícil para mim da mesma forma que é para ele.
Eu o amo, se não amasse, não passaria por tudo isso, mas eu não sei mais o que fazer, nem como reagir a tudo isso, me sinto egoísta por pensar dessa maneira, me sinto horrível às vezes por não conseguir me comunicar com ele de uma forma mais clara.
Ele é sinalizado, só se comunica através da Libras, não entende bem o português. Como não sei Libras ainda, tentamos nos comunicar por mensagens quando estamos juntos, mas é também uma tarefa bem difícil, porque ele não consegue entender algumas frases. O que eu sei sobre a deficiência dele é que é de nascença, e que ele não ouve nada no ouvido direito, mas no ouvido esquerdo consegue ouvir barulhos altos, tipo música bem alta, essas coisas.
Sabe quando você sai pela primeira vez com uma pessoa e sempre fica com aquele frio na barriga por não sabe como as coisas serão, se vocês vão ter assunto para o encontro todo ou vai ficar aquele silêncio bem constrangedor? Eu sinto esse frio na barriga a cada vez que vou sair com ele. Nunca precisei lidar com o diferente na minha vida, nunca antes havia conhecido alguém que não escutasse, então me envolver tanto com o “Y” esta sendo um desafio muito grande pra mim. Primeiro vem as coisas que as pessoas próximas a mim falam do tipo “não vai dar certo” que me deixam bem triste e chateada, além das risadas quando o nome dele é falado e das piadinhas de mau gosto.
Depois vem tudo que te falei antes, ele é muito inseguro, ele tem dezenove anos, mas é dependente das pessoas para ter uma vida o mais normal possível. Ultimamente, ou melhor, desde que conheço ele, tento arranjar formas de conseguir pelo menos me comunicar com ele, estou tentando aprender Libras, mas a minha timidez só piora tudo. Ouvir é uma das melhores coisas do mundo e eu sei disso porque estou dando mais valor a isso. Sinto falta de poder dizer “te amo” e saber que a pessoa para quem eu falo vai conseguir me ouvir e responder “também te amo”, sinto falta de ver filmes junto com alguém que saiba o que está se passando no filme, sinto falta dessas coisas bobas, mas que com ele, eu infelizmente não tenho.
É pedir demais querer que ele escute a minha voz, e que eu escute a dele também? Nós nunca saímos com meus amigos, ele não conhece nenhum deles porque sempre que vou sair e chamo ele, ele diz que não vai porque não vai ouvir ninguém e vai ficar sozinho, consequentemente vai ficar triste. Nossa, como eu odeio isso!
No dia 26, dia dos Surdos, eu vi que as pessoas davam Parabéns para ele no Facebook e me senti muito revoltada, desde quando se dá Parabéns por uma coisa que não é boa? Algo aí está errado. O fato dele recusar usar aparelhos auditivos só me revolta mais ainda, se alguém tem uma chance de se ajudar, qual o problema de tentar? É como se um paraplégico se recusasse a fazer fisioterapia porque não iria voltar a andar mesmo assim, mas espera ai, isso ajudaria ele, não?
Não sei o que será do meu relacionamento com o “Y”, tenho paciência com ele, não me importo em explicar o que foi dito, não me importo em ajuda-lo sempre que ele precisa e da minha ajuda, mas há coisas com que eu me importo e que fazem muita diferença, que são as coisas que acabei de te dizer.
Qualquer conselho, qualquer ajuda, qualquer luz no fim do túnel, mesmo que venham de pessoas que não conheço me ajudariam muito, porque eu, sinceramente, me sinto muito perdida em meio a todas essas frustrações!” 🙁