Tem sido muito revelador reescrever posts antigos de dez anos atrás. Posso comparar minhas experiências naquela época, quando usava aparelhos auditivos, com agora, quando vivo com dois ouvidos biônicos. As comparações que isso me permite são muito interessantes.
Como era em 2010…
Amo usar meus aparelhos auditivos. E amo não usá-los. Preciso de momentos de silêncio, ou melhor, momentos em que fico a sós com meu zumbido. Ouvir é uma delícia, mas cansa. Explico: quando uma pessoa ouve normalmente, seu cérebro sabe ‘filtrar’ os barulhos irritantes. Quando uma pessoa não ouve bem, os aparelhos amplificam tudo. E alguns barulhos causam uma angústia atordoante. Exemplos: aspirador de pó, cachorro latindo, alarme de carro soando, porta batendo.
Às vezes, após um dia estressante e cansativo, tudo o que quero é chegar em casa e me ‘desligar’. E quando me ‘desligo’, acabo irritando todos ao meu redor. Mesmo que você passe o dia inteirinho fazendo uso da tecnologia para ouvir melhor, parece que as pessoas não perdoam que você queira ser quem efetivamente é, mesmo que só por algumas horinhas.
Acho que nem preciso comentar o fato de que até as pessoas próximas não têm muita paciência com os surdos.
Amo e sou muito grata por ter a opção de OUVIR. Fico maravilhada quando olho para os aparelhos, tão pequenos e ao mesmo tempo tão milagrosos.
Eles me tiram do estado de silêncio quase absoluto e me colocam num mundo cheio de sons. Sons que podem passar despercebidos para os ouvintes mas que causam uma felicidade enorme e vários sorrisos rasgados no rosto.
Nada se compara a estar sozinha numa sala, abrir a janela e, de repente, reconhecer um bem-te-vi cantando. Ou a estar dirigindo num dia de chuva e apreciar a sinfonia das gotas caindo nos vidros do carro.
Até uma sinfonia de dedos e unhas batendo numa mesa de madeira pode ser prazerosa – bem como entender algo que alguém falou sem olhar para o rosto da pessoa. São pequenas conquistas. São sons que os aparelhos trouxeram de volta à minha vida após tantos anos.
Mas também gosto do silêncio. Ele me proporciona um momento de meditação. Absolutamente nenhum barulho para me distrair faz com que meu cérebro e minha alma descansem um pouco desse mundo de novidades sonoras.
Acho que o som e o silêncio se complementam, e eu preciso dos dois. Muito mais do som do que do silêncio, diga-se. Hoje ele me ajuda, mas em doses homeopáticas.
Como é em 2021…
Há 10 anos, jamais havia me passado pela cabeça que eu estaria ouvindo tudo, teria um filho, moraria no Rio, teria perdido minha mãe, vencido um programa do Facebook e aberto tantas importantes para tantos surdos espalhados pelo mundo.
É bem esquisito pensar em como eu era em 2010: é como se meus medos e desesperos por causa da deficiência auditiva tivessem todos desaparecido.
Minha relação com a surdez mudou. Ela não me assusta mais. A tecnologia me permitiu contorná-la maravilhosamente, e isso facilitou muito a minha vida inteira. Me deu paz e sossego, duas coisas que eu não conhecia antes.
Sigo amando a possibilidade de ter momentos de silêncio
Uso e abuso do meu botão OFF especialmente no trabalho, quando preciso me concentrar em algo que estou escrevendo ou criando.
A possibilidade de poder me desligar por completo e não ouvir nada quando preciso ou desejo é um verdadeiro luxo. Várias pessoas que ouvem perfeitamente já me disseram que sentem inveja disso e que gostariam de poder fazer igual.
Todas as noites, durmo no mais absoluto silêncio
Só saio dessa rotina quando meu marido viaja e preciso ouvir se meu filho me chamar durante a noite. Se você me perguntar qual é a coisa que mais detesto na vida, eu diria que precisar dormir ouvindo é uma forte candidata.
Amo, valorizo e venero o silêncio para dormir. No início, depois que Lucas nasceu, foi bem sofrido precisar dormir usando IC – várias noites, passei em claro, pois qualquer mísero som me fazia acordar.
Assim que acordo, gosto de curtir um pouco de silêncio. Em geral só coloco os ICs depois de ir ao banheiro escovar os dentes. Aí sim, meu dia começa. O mundo é mesmo muito barulhento, e as pessoas sequer se dão conta disso. O silêncio pode ser extremamente revigorante.
Após um dia de muitos sons e atividade cerebral por causa deles, confesso que não vejo a hora de poder encostar a cabeça no travesseiro, me desligar e assistir algum seriado no Netflix com legendas. O silêncio não me perturba mais porque sei que o som está ali do lado, e que basta abrir a porta para ele.
E vocês, como se sentem a respeito disso?
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