Você certamente já se deparou com um ‘0800 para deficientes auditivos e da fala‘, o famoso telefone TDD. Essa geringonça dinossáurica, que só tem utilidade como peça de museu, é vendida até hoje no Brasil como sendo a grande ferramenta de ACESSIBILIDADE para surdos. Sim, você leu direitinho. Não, não é uma piada – é a legislação vigente.
Qualquer banco, instituição financeira, concessionária de rodovia e outros locais públicos e privados que se dizem acessíveis oferecerão isso como acessibilidade. Os Correios estão divulgando essa ‘novidade’ e se declarando super acessíveis aos surdos por causa dela. É pra rir ou pra chorar? Se você não escuta, meu amigo, é pra chorar. E, depois, comprar a briga pelo fim dessa inutilidade.
Como funciona o dinossauro, digo, telefone TDD? Vejam só! Em vez de disponibilizar um número para o qual qualquer surdo possa mandar um SMS ou um WhatsApp de qualquer lugar onde estiver – em pleno ano de 2022 todo mundo tem um telefone celular – disponibilizam um telefone caro e inútil, que precisa de intermediários para fazer uma coisa básica e ridiculamente simples como enviar uma mensagem.
Acessibilidade para surdos: os números globais da surdez
Você provavelmente não sabe que há 1.5 BILHÃO de pessoas com algum grau de perda auditiva no mundo. A maioria esmagadora dessas pessoas NÃO USA língua de sinais – usa aparelhos auditivos ou implante coclear e se comunica oralmente como qualquer pessoa que escuta.
Como os surdos do Brasil se comunicam?
O pessoal que vende produtos e serviços de acessibilidade não quer que você saiba que a maioria dos surdos NÃO USA LÍNGUA DE SINAIS. Por que insisto nessa informação? Porque as empresas e órgãos publicos, por desconhecimento, gastam verdadeiras fortunas achando que estão ajudando TODOS os surdos quando, na verdade, estão ajudando a ínfima minoria deles.
Acessibilidade deve ser para TODOS, não para a minoria das pessoas que não escutam.
Os surdos oralizados (maioria da população com deficiência auditiva, não usuários de Libras) até hoje são reféns da legislação sobre acessibilidade que parou no tempo e só beneficia os surdos sinalizados. Antes, éramos reféns apenas do inútil telefone TDD (que não ajuda nem os oralizados, nem os sinalizados). Agora, também somos reféns do desconhecimento geral da nação e da disseminação dos serviços de avatares de Libras – que, segundo a comunidade surda, não ajudam nem mesmo os surdos sinalizados.
Parece um pesadelo: até outro dia, éramos direcionados ao inútil “0800 para deficientes auditivos e da fala”. Agora, somos direcionados a avatares de Libras. Com o perdão do palavrão, mas *PQP!!!!
Como ninguém se interessa PRA VALER pelas necessidades de acessibilidade das pessoas com deficiência auditiva e nem para para estudar sobre a DIVERSIDADE da SURDEZ, isso continua. Esse post foi originalmente escrito em 2016 e, em 2022, nada mudou. Pelo contrário, piorou!
Como seria um SAC acessível a TODOS OS SURDOS?
Se você quer oferecer recursos de acessibilidade para pessoas que não ouvem ou ouvem mal, o primeiro passo é chamar essas pessoas para a conversa. Se você conversar apenas com quem vende “soluções de acessibilidade”, corre sério risco de, no fim das contas, não ajudar quase ninguém. Chame os verdadeiros interessados em acessibilidade para a conversa, ok?
Um SAC acessível a TODOS OS SURDOS deve ter os seguintes recursos de acessibilidade:
- atendimento por WhatsApp
- central de atendimento em Libras com intérpretes de carne e osso
- atendimento por email
- atendimento por telefone
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Como funciona o Telefone TDD
“O dispositivo chama-se Telecommunications Device For The Deaf (TDD). Trata-se de um telefone público comum, que é acoplado à um aparelho de teletexto. O surdo retira o telefone do gancho, coloca no aparelho teletexto e disca para a Operadora de Telefonia. Uma atendente então faz o serviço de intermediação entre um deficiente auditivo e uma pessoa ouvinte.
Ela saúda o surdo através de uma mensagem de texto. O surdo então digita o que ele quer dizer e a operadora então diz para a pessoa do outro lado da linha o que o deficiente auditivo “falou”. Em caso de resposta, a mensagem é transmitida pela operadora em mensagens de texto para o surdo. Este sistema permite que o surdo faça ligações telefônicas e se comunique com pessoas ouvinte de modo simples e ágil.”
Não sei vocês, mas eu senti vontade de me atirar da janela depois de ler isso…
- O negócio é do tamanho de um laptop e pesado pacas!
- foi criado em 1964 (!!!!)
- custa os olhos da cara
- só faz UMA coisa
- não é portátil
- não conecta com a internet
- precisa de duas pessoas e dois trambolhos desses para enviar UMA mensagem
A VERDADE sobre acessibilidade para surdos
Acessibilidade diz respeito a recursos que são grátis (ou ao menos muito baratos), de fácil acesso e disponíveis 24hs em qualquer lugar. A única vez em que vi um negócio desses ao vivo e a cores foi no aeroporto de Santa Maria, num canto, jogado às traças, cheio de bichos e sujeira, sinal clássico de falta total de uso. O pior é que não é nem a falta de uso, mas a falta de utilidade.
Eu sempre senti raiva disso, mas ontem foi a gota d’água. Eu estava na rodovia que liga Cabo Frio ao Rio de Janeiro, quando me deparei com várias placas avisando que a rodovia tinha telefone TDD caso algum surdo precisasse entrar em contato.
Liguei de curiosa. Da primeira vez, deu uma mensagem dizendo que o número não existia. Liguei mais 3x e o telefone tocou, tocou, tocou…e ninguém atendeu. A geringonça deve ficar numa sala na qual ninguém entra, já que certamente jamais houve um telefonema.
Imaginem a cena: se eu tivesse me acidentado à noite e estivesse sozinha no carro e presa nas ferragens com meu celular no bolso. A legislação me obriga a me deslocar até algum lugar que tenha telefone TDD (onde seria isso no meio da estrada, meu Deus?) e entrar em contato com alguém, isso se eu tiver a sorte de atenderem o telefone do outro lado da linha.
Qual a alternativa mais simples e certeira para alguém que tem um celular no bolso? Um número que eu possa ligar, mandar SMS ou chamar no WhatsApp.
TELEFONE TDD não é acessibilidade, é INUTILIDADE
Agora me digam: qual é a dificuldade, meu povo? Telefone TDD em 2016 é o mesmo que, em vez de rampa de acesso, dizer ‘temos pessoas para pegar cadeirantes no colo quando for necessário‘. Pelo amor de Deus, como é possível que o poder público e as pessoas em geral não enxerguem e não se revoltem contra isso?
Já perdi as contas de quantas vezes precisei de algo do banco e fui direcionada ao ‘0800 para deficientes auditivos e da fala‘. Acontece que eu não tenho um telefone TDD, e esse 0800 especial só funciona para quem tem um. Acontece que eu jamais compraria isso. Acontece que é uma falta de respeito e FALTA DE ACESSIBILIDADE querer obrigar um surdo a se adequar a uma tecnologia dos anos 60. O grande problema de não chamarem surdos oralizados para as reuniões que envolvem interesses dos surdos em geral é esse: ficamos de fora e nossas necessidades não são conhecidas porque não somos ouvidos. Nem mesmo para os surdos sinalizados o telefone TDD é útil.
Campanha TELEFONE TDD NÃO É ACESSIBILIDADE PARA SURDOS
Participem espalhando pelas suas timelines, deputados, senadores, CONADE, etc. Não vamos esperar até sofrer um acidente numa estrada à noite, precisar cancelar um cartão de crédito num final de semana, ter que pedir socorro para polícia e bombeiros em emergências ou qualquer coisa parecida para acabar com essa humilhação.
Para mim, chega. Somos surdos, sim, mas existe tecnologia grátis e suficiente para não precisarmos de intermediários quando se trata de acessibilidade. Ajudem a espalhar essa campanha! Conto com vocês!
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LIVROS CRÔNICAS DA SURDEZ
Neste link você encontra os seguintes livros:
- Crônicas da Surdez: Aparelhos Auditivos
- Crônicas da Surdez: Implante Coclear
- Saia do Armário da Surdez
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