Dia 16/06/2016 foi um dia especial, que vai ficar guardado na memória tal qual o dia 11/11/2013 – ativação do meu segundo implante coclear. Hoje é o meu quarto dia como cyborg bilateral e finalmente sinto que posso começar a escrever um pouco sobre essa experiência! Enquanto escrevo, uso apenas o IC no ouvido recém-ativado, por recomendação da fonoaudióloga. E estou aqui ouvindo o barulho das teclas do computador, feliz da vida. 🙂
Fui para a SONORA com mais expectativa do que na primeira vez, porque já tinha uma boa idéia do que poderia acontecer. Quando as fonos começaram os trabalhos, fiquei mega contente porque os barulhos-teste de cada eletrodo antes da ativação propriamente dita estavam altos e claros, o que me fez achar que assim que o IC fosse de fato ligado eu iria ouvir daquele jeito. Mas…me enganei redondamente! As vozes das fonos estavam lááááá longe, eu estava ouvindo baixíssimo, apenas algumas partes da minha própria voz. Quando o Luciano chegou e começou a conversar comigo, minha reação foi: “Ai, meu santo! A tua voz ta chegando aqui igualzinha à voz de mulher!”
O segundo implante me deu uma grande lição: aprendi o que ensino todos os dias. Em primeiro lugar, que a ativação é um momento que pode ser muito frustrante. Em segundo, que não devemos ter qualquer tipo de expectativa em relação a esse dia. Na verdade, hoje vejo a ativação de um jeito completamente diferente: ela é apenas o marco inicial de uma jornada que levará o nosso cérebro a trabalhar de um jeito que ele ainda não conhece. Nada além disso. Um momento de novidade e início da decodificação dessa novidade.
Quando ativei o primeiro, meu sentimento era outro, pois eu só queria confirmar minha teoria de que o IC me permitiria ouvir um pouquinho mais alto do que eu ouvia com os aparelhos auditivos. Quando ativei o segundo, fui querendo comprovar a minha teoria de que ali mesmo eu ouviria com o ouvido esquerdo de um jeito bem parecido como já estava ouvindo com o direito. A decepção foi instantânea, porque a espertinha aqui queria MAIS do que conseguiu.
Acontece que o cérebro humano é de fato a coisa mais interessante e surpreendente de todas. Em menos de 10 minutos o meu cérebro fez ‘click’ e entendeu que é melhor ouvir com dois IC’s do que com apenas um. Quando as fonos desligavam o esquerdo e me deixavam só com o direito eu sentia uma agonia instantânea! Aquele pouquinho esquisito que havia acabado de ganhar já estava me fazendo falta.
Saí da SONORA cabisbaixa, confesso. A gente não controla o que sente, embora goste de achar que isso é possível. Ao chegar na rua, meu cérebro entendeu que agora eu ouvia com dois implantes. Aposto que outros implantados também têm essa mesma sensação quando o corpo inteiro reconhece uma novidade recém-aprendida pelo cérebro. É indescritível – só sendo cyborg para entender a onda de energia e entusiasmo que o corpo todo solta nesse exato momento.
No primeiro dia, além de estar ouvindo partes estranhas e baixíssimas das coisas e da voz do meu marido estar igualzinha à voz de uma mulher, ganhei um presente de grego: uma abelha pianista passou a acompanhar a chegada de cada onda sonora na minha cabeça! Um zunido desconfortável e irritante o tempo todo que parecia uma mistura do som que as abelhas fazem ao voar com o barulho que aquelas pulseiras indianas de camelô (alô, Jade em Caminho das Índias) fazem ao encostar uma nas outras. Imaginem o meu grau de irritação…
Só fui me alegrar ao chegar em casa e me deparar com o vídeo que minhas amigas lindas de Santa Maria fizeram pra mim, todas de camiseta com os dizeres “Ativação do Implante Coclear da Paula: #euFui”. Se alguém quiser ver a fofurice master, é só me seguir no Instagram (@PaulaPfeiferM) porque postei lá. Michele Garcia, Jordana Freire, Dayana Paranhos e Juliana Zuchetto, vocês não existem!
No segundo dia, coloquei o IC esquerdo de manhã cedo e fiquei um tempo sozinha no quarto. O zunido da abelha possuída continuava firme e forte ao menor sinal de som, mas meu cérebro me permitiu alguns pequenos gigantescos prazeres. Ao passar perfume, ouvi o som do borrifo do perfume. Ao escovar os dentes, ouvi o som da escova em atrito com os dentes. Fiquei tagarelando e ouvi melhor a minha voz. Minha amada amiga Daniele Honorato do Unha Bonita veio de São Paulo passar esses primeiros dias comigo, e junto com minha amada Alexandra Bastos, fomos passear e jequitizar (piada interna) pelo Rio de Janeiro para ver se minha irritação passava… Passei o dia sem lembrar que estava com dois implantes, mas o esquerdo estava me machucando, muito acomodado perto da minha cicatriz, causando um desconforto chato e vontade de tirar por causa disso. Outro fato engraçado é que eu estava e ainda estou com uma dificuldade monstra de ‘vestir’ o IC esquerdo. Minhas mãos não sabem o que estão fazendo, de tão acostumadas a ‘vestir’ o direito. Fico totalmente confusa e perco um tempão até conseguir encaixar no OE, conectar a antena com o ímã e então ligar – me sinto tal qual o cara deste vídeo. Lembrei que quando comecei a usar o direito, em 2013, o som dele junto com o do aparelho auditivo nos primeiros dias foi esquisitíssimo, até que um belo dia eu acordei e o som dos dois havia se fundido no meu cérebro e ficado igual. Aguentei usar os dois IC’s até o finalzinho do dia, pois a dor/desconforto estavam me irritando e, ao chegar em casa, éramos 7 pessoas falando ao mesmo tempo. A tolerância de implantado bilateral recém-ativado de um lado é bem curta…
No terceiro dia, as gurias me levaram pra passear de novo – as duas ficavam o tempo todo me perguntando como estava a ‘abelha’, hahaha. Falei “HÃN?” várias vezes e, como todo surdo de carteirinha, fiquei p. da vida por causa disso, acho que não há nada que me deixe mais braba comigo mesma do que soltar um “HÃN?” a esta altura do campeonato. A Ale nos levou para almoçar no Iate Clube do Rio e lá passamos várias horas conversando e bebendo caipirinhas como vocês podem ver na foto! 🙂
À noitinha, acabei tirando outra vez o IC esquerdo por conta da dorzinha incômoda que ele estava me causando e percebi que não tem nada a ver com a cicatriz, mas sim com o contato das bordas dele com uma orelha desacostumada. Não é à toa que aqui em casa dizemos que tenho as orelhas ‘tronchas’ – tem sempre um problema! A dor fica no local exato de uma parte da cartilagem de trás da orelha que fica em contato com o final da bateria recarregável. Haja paciência…
No quarto dia, acordei e coloquei os dois implantes. Passei a tarde conversando e não ouvi o aviso do IC de que a bateria iria acabar. Resultado, fiquei sem bateria no meio de uma conversa. A parte boa é que meu cérebro não gostou nada disso e fez questão de me mostrar como eu já estava ouvindo muito mais com os dois. Resolvi passar um tempo sozinha e só com o IC esquerdo, para fazer a lição de casa passada pelas fonos (usar apenas ele durante algumas horas por dia). Peguei o computador e sentei para escrever esse post no terraço, e foi então que notei que estava ouvindo muito bem o som das teclas, meu cachorro latindo, minha voz muito mais alta também e até uns barulhos que me pareceram ser de pássaros. E, o mais sensacional, a abelha possuída sumiu (espero não ter cantado vitória muito cedo e que ela não volte a me atormentar amanhã, mas por ora está desaparecida). Fiquei um tempão falando sozinha pra testar a minha voz e nesse momento estou querendo botar o Pikachu de castigo porque ele está aos berros latindo pra mim. Tirando a abelha, nenhum som me incomodou, amei voltar a ouvir com o ouvido esquerdo depois de tanto tempo sem sons agudos nele na vida!
Não vou mentir: sou uma paciente ansiada que quer evoluir mais e mais a cada dia que passa. Não aguento esperar muito e se pudesse veria minha fonoaudióloga uma vez por semana. Por isso já brinquei bastante com os programas P1, P2, P3 e P4 e é claro que já descobri que ouço muito mais com o P4 – inclusive o barulho que o Nucleus 6 faz para nos avisar em qual programa estamos. Acho que não vou querer voltar pro P1 e talvez minhas fonos me abandonem pra sempre depois que lerem esse post e perceberem que sou um péssimo exemplo de má conduta cyborg. Márcia Cavadas, Sandra Giogi Santanna e Lena Dutra, amo vocês e por favor não me matem.
Como falei em outro post, ativei com um backup, o meu processador ainda não chegou, vou tentar me informar sobre a previsão de chegada mas ainda é cedo. Não consigo parar de pensar no quanto quero um cabo de áudio bilateral pra ouvir música na academia com os dois e no quanto quero também conectar logo ambos com o MiniMic – o acessório wireless pra atender o celular e o que serve pra ver TV também vão me fazer falta agora. É muita coisa pra pensar, não?
Amanhã começo a semana no meu quinto dia como bilateral e já sei que vou começar gostando e curtindo cada nova descoberta. Fazer um IC é, no fim das contas, aprender a ser paciente e a dar valor para cada mísera conquista sonora diária. Daqui pra frente, ninguém me segura! Aqui a estimulação é intensa, a ansiedade é grande e a gratidão é maior ainda. Meu coração tá meio que explodindo de felicidade e vontade de melhorar mais!
Obrigada a todos os envolvidos nessa nova estrada e um beijo pra mãe, seja lá onde ela esteja, que deve estar me olhando lá do céu e pensando “êta guria danada essa!” 🙂
PS: O Luciano acabou de chegar em casa e contei que estava no P4. Ele falou três frases curtas enquanto eu ficava de olhos fechados prestando atenção nelas. Acertei duas! \o/

