Relatos de Pessoas com Deficiência Auditiva

A história de Keite: surda oralizada, pedagoga e contadora

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‘Começo minha história me apresentando. Me chamo Keite, tenho 27 anos, nasci em Osasco, dia 22/04/1987 com deficiência auditiva bilateral. Hoje, sou oralizada, com formação em Pedagogia e recém-formada em Ciências Contábeis. Até hoje, não sabemos como aconteceu a minha deficiência, ao que tudo indica, minha mãe teve complicações no parto, mas as origens da causa do problema ainda são desconhecidas.

Na fase em que eu deixava de ser um bebê e passava a ser criança, já apta interagir e compreender o mundo, minha mãe notou que eu estava demorando a falar e isso me deixava muito agitada. Nem ela, nem meus familiares entendiam o que se passava comigo, eu fazia muita arte mesmo, quebrava as coisas, era uma criança rebelde.

Aos 4 anos de idade, por meio de uma indicação da escolinha que passei a frequentar, minha mãe me levou ao médico, que descobriu o meu problema. Ela teve que escutar o diagnóstico do médico: “Sua filha tem deficiência metal ou auditiva” A reação instantânea de minha mãe foi rebater, dizendo: “Problemas mentais tenho certeza que ela não tem. Pode ser deficiente auditiva e se for isso, vamos cuidar dela, amar e fazer o possível para que tenha qualidade de vida. Vou lutar por minha filha.”

Desta forma, começou nossa batalha. Digo nossa, pois, além de minha mãe, sempre contei com o carinho e atenção de meu pai e minha irmã, que até hoje estão ao meu lado, apoiam minhas decisões e me dão forças nos momentos difíceis. E tenho também tios, tias, primos, avós, etc., que aprenderam a lidar com a minha dificuldade, ou seja, a família mobilizada a meu favor, desde pequena, quando ainda aconteciam idas frequentes a médicos, para bateria de exames e todas as correrias possíveis, até sair o diagnóstico correto.

Na verdade ainda não temos o parecer concreto sobre minha deficiência auditiva. O que sabemos é que o problema é entre o ouvido e o cérebro, pois já fiz cirurgia e não encontraram nada de anormal, tentei aparelhos auditivos sem sucesso, também já fomos atrás de implante, que não resolveu minha situação. Diante de tantas negativas, partimos para a estratégia de aceitação e buscas que driblavam a deficiência. Minha família e eu fomos atrás de contornar os obstáculos.

O objetivo era que eu levasse uma vida normal, como todas as pessoas, que passam por diferentes períodos na vida. Enfim, o caminho era aprender a viver, conviver e lidar com minha condição, principalmente ir tendo resultados no decorrer do meu desenvolvimento, conforme os anos e a idade fosse chegando, afinal, enfrentaria (e enfrento), como todo ser humano, inúmeras fases: infância, pré-adolescência, adolescência; atualmente, vida adulta, e futuramente a velhice.

Como a normalidade era o nosso foco, um dos primeiros passos foi ter consultas frequentes de fonoaudiologia. A realidade é que, este tipo de terapia é fundamental na vida do deficiente auditivo e comigo não foi diferente.

Minha fonoaudióloga teve um papel muito importante e definitivo em minha vida. Ela teve a percepção que eu não precisaria desenvolver a LIBRAS, pois eu falava algumas coisas, ainda que muito enrolada, mas falava. Na verdade, eu queria falar e falava do meu jeito, porém percebia que tinha algo errado comigo, que minha fala era diferente das demais pessoas, mas não entendia o que era, e o que me acontecia. E só fui compreender que eu tinha perda auditiva aos sete anos. Por um tempo, dei trabalho para minha mãe porque não queria ir a fonoaudióloga, mas quando chegava no consultório, eu entendia que era por meu bem, e seguia tudo certinho.

Fora anos de tratamento fonoaudiológico, no entanto, com muito jeitinho, carinho e elogios, fui desenvolvendo a técnica de leitura labial e a fala. Aos 9 anos eu já estava 100% inserida nesta prática e todos podiam falar comigo, mas as pessoas precisavam falar de frente, (até hoje é assim) para que pudesse ver os movimentos dos lábios de quem falava. E as pessoas também podiam entender o que eu falava; mesmo trocando algumas letras, eu conquistei o domínio da fala e me oralizei.

Quando cheguei a idade de educação formal, mais uma vez minha mãe incorporou seu espírito de guerreira para que eu pudesse me alfabetizar e aprender como as outras crianças. Minha mãe andou por quase toda São Paulo em busca de escolas para mim. Escolas públicas não me aceitavam e até escola particular foi difícil.  Nesta época não se ouvia falar em inclusão e existiam escolas especiais e cheguei a fazer teste em uma própria para surdo e mudo, porém alegaram que eu poderia frequentar escola normal, então a saída era escola particular e com muito custo conseguimos uma.

Fui estudar em Osasco, em uma escola particular que me aceitou de braços abertos, pois o próprio diretor conhecia e entendia bem o meu problema, por também ser deficiente auditivo. A coordenadora, juntamente a ele, aceitou o desafio e hoje tenho muito que agradecer a esses profissionais; graças a eles pude frequentar escola, o que contribuiu incondicionalmente para a minha formação.

Para complementar a escola, diante de algumas dificuldades específicas, fiz aulas particulares para conseguir ser totalmente alfabetizada. E mais uma fase que não foi fácil, três anos conciliando escola, aulas particulares e fonoaudiólogo. Eu tinha apenas o fim de semana para brincar, e toda criança só pensa em brincar. Como grãos de areia que se juntavam para formar a praia, tudo tratavam-se trabalhos diários, com profissionais externos e meus pais em casa; nem eles nem eu não pode desistir, e num futuro, que já se apresenta veio a recompensa.

Depois de seis anos de tratamento com fono, dos 4 anos ao 10 anos, fui liberada, e segui minha jornada de aprendizado pela escola. Mas era uma batalha constante por adaptação, professores que precisavam falar de frente, sem andar pela sala, e necessariamente eu sempre sentava nas cadeiras da frente, muitas vezes outros pegavam meu lugar e não como ficar frente, além de tudo, em algumas séries já comecei a sentir o preconceito dos colegas de sala, porém o pior foi com alguns professores porque muitos professores não se adaptavam e queriam que eu me adaptasse a eles.

Na sexta série tive sorte de encontrar duas amigas maravilhosas, Viviane e Eduarda, que mesmo à distância, estão comigo até hoje, e me ajudaram durante um tempo do período escolar, mais especificamente até a 8º série, quando me saí de Osasco e fui para outra cidade.

Em 2003 mudei para interior, concluí o ensino médio, uma vitória incontável depois de tantos altos e baixos. Não imaginava que iria conseguir terminar o ensino básico, mais venci e tampouco pensava em fazer faculdade, mas tomei a decisão de tentar fazer pedagogia, pois enquanto eu cursava o ensino médio refleti sobre meus problemas, e vi que poderia ajudar outras pessoas, iguais a mim ou não e principalmente crianças, que ainda tem tudo pela frente na vida.

Na faculdade, passei a observar as dificuldades para ensinar e aprender. Perante a realidade do universo educativo, desenvolvi um projeto de reforço, para alfabetizar algumas crianças. Foram 4 anos de trabalho muito gratificante numa escola municipal e ao concluir Pedagogia e defendi meu Trabalho de Conclusão de Curso sobre: Reforço extra-sala, na alfabetização de indivíduos portadores de necessidades especiais auditivas.

Em 2008 tive que deixar o meu projeto, pois não tive remuneração nem incentivos para continuar.

Em consequência, parti para novas experiências e consegui emprego em uma empresa pela cota de deficientes. Essa lei com certeza ajudou a gerar muitas oportunidades aos deficientes, que foram valorizados e muito tem forte capacidade de trabalho, como eu. Tive a oportunidade de conhecer a fundo uma empresa de grande porte e trabalho nela há 6 anos, no departamento de contabilidade. Passar de Pedagogia para Contabilidade foi um grande salto, dois mundos diferentes, um humano e outro materialista. Confesso que no começo me vi perdida e por isso, resolvi estudar Ciências Contábeis, para ajudar a melhorar meu desempenho no trabalho.

Em 2010, iniciei mais uma nova etapa escolar, com uma coragem absurda, resolvi investir na nova graduação, mas perdi a conta de quantas vezes eu pensei em desistir. Diversas vezes cheguei chorando em casa neste período. Nesta faculdade não tive apoio de ninguém, coordenação, direção, apenas de alguns professores e dois amigos.

Dessa vez os professores não colaboravam mesmo, eu era obrigada a me virar sozinha e a sensação de abandono e desamparo constantemente me invadiam. Inúmeras vezes mandei e-mails para a instituição, solicitando que se adaptasse e não esquecessem que tinham uma aluna deficiente auditiva oralizada em uma de suas classes. Mas sempre havia desculpas, conversas sem resultados e as negligências continuavam. Arrependo-me de não ter lutado por meus direitos no início da faculdade, porque desde 2006 já existe uma lei  que permite aos deficientes auditivos terem interpretes para auxiliarem os estudantes com esta característica.

Quando eu fui para o terceiro ano de faculdade entrei em depressão durante um período e pensar em voltar a estudar naquele ambiente hostil me dava pânico. Diante disto, novamente, minha mãe entrou em ação e não me deixou desistir. Começou a ir atrás dos meus direitos, acionamos a faculdade para que colocassem um interprete nas aulas, sem sucesso. A saída foi recorrer a um promotor público e assim não tiveram como negar e consegui uma interprete no último ano de faculdade. A ordem de me disponibilizarem o profissional, determinada pela justiça, foi no começo do ano, mas ainda conseguiram adiar o meu benefício para o meio do ano, quando apareceu um anjo em minha vida, a Interprete Rosymar Matos.

Os trabalhos dela começaram e como eu sou oralizada, ela me falava o que eu perdia, mas sua maior benfeitoria para mim era o registro de toda a matéria falada pelos professores. Agora e assim, eu tinha conteúdo para estudar, a questão e o detalhe que vale a pena destacar é que infelizmente, tratava-se do meu último semestre de faculdade, ou seja, os três anos e seis meses anteriores foram completados com sufoco além do normal, para um curso universitário e ainda mais por eu já ser da área de educação, tenho plena consciência dos possíveis déficits que este meu segundo curso pode ter.

Atualmente estou recém-formada em Ciências Contábeis e sou a prova que é possível, sim um deficiente auditivo concluir um ensino superior e não só uma vez.

Posso dizer que, mesmo com tanta dificuldade, agradeço a Deus por toda essa luta que me fez crescer e ter uma noção de mundo privilegiada, com conhecimento, força e fé. Meu conselho aos deficientes é que nunca desistam, pois, obstáculos sempre vão existir, então lute até onde puder, mais lute pelos seus direitos, pois temos leis que nos protege. E em resultado de toda essa luta, me achei e descobri que meu dom e minha paixão é ENSINAR!!!

Sou Pedagoga com muito orgulho e serei Contadora de histórias!!!

Contei minha história para esse blog e com ajuda da minha amiga jornalista me motivei a escrever um livro ‘Fale de frente com a Keite’, um livro para ajudar os pais, os próprios deficientes auditivos, profissionais da educação e empresários.’