Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva

A dificuldade de acompanhar as conversas…

A dificuldade de acompanhar as conversas é um clássico da deficiência auditiva! Na semana passada foi aniversário do meu irmão, e vários amigos nossos foram lá em casa dar um abraço. Tento, aqui no Crônicas, mostrar apenas casos e histórias que sirvam para nos dar força e ânimo e a nos encorajar a melhorar. Mas não sou hipócrita e nem tento vender a falsa imagem de ‘surda que tudo consegue com a maior facilidade do mundo’. Algumas coisas me deixam meio desnorteada e até um pouco cabisbaixa – por um curto período de tempo, mas deixam.

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Estávamos todos na sala. No total, éramos dez pessoas. Todos falando ao mesmo tempo, com direito a música de fundo e três cachorros latindo – os três cachorros possivelmente estavam conversando entre eles, rsrsrsrs. É o tipo de situação capaz de enlouquecer uma pessoa com deficiência auditiva. Só lembro de ficar zonza e pensar : “presto atenção na música, na conversa, nos cachorros, no quê, socorrooo!!”.

Decidi começar prestando atenção na pessoa que estava ao meu lado. Só que, em menos de dois minutos, as outras pessoas entram na conversa, e quando vejo tenho que ficar olhando pra um, pra outro, pra mais outro e, quando me dou por conta, fico vesga e com dor de cabeça. E o pior nem é isso, mas sim que, enquanto converso com um ou dois, os outros estão todos em conversas paralelas mas ouvindo o que o resto conversa, ou seja, de repente todos estão dando gargalhadas e fico sem saber o motivo. 🙁

Sejamos sinceros: bate um desânimo.

Mesmo com os melhores aparelhos auditivos, mesmo sendo ninja em leitura labial…não consigo acompanhar conversas de um grupo grande. É humanamente impossível para mim, e é o tipo de situação que prefiro evitar. Sinto um prazer enorme em conversar calmamente com uma ou duas pessoas ao mesmo tempo, pois é um momento em que estou prestando atenção 100% nelas e elas em mim. Já em grupos grandes, acabo me tornando aquela que não escuta e, consequentemente, não capta nem 10% de tudo o que é dito.

Não é algo que eu goste de fazer, definitivamente. É lógico que isso não é motivo para se isolar do mundo e evitar a todo custo esse tipo de situação social – mas que é o tipo de coisa que NÃO me dá prazer, é. Se alguém estiver se perguntando como alguém poderia não gostar de estar num grupo de várias pessoas conversando, entenda que uma pessoa que não ouve ou ouve parcialmente fica como uma bolinha de ping-pong: não entende algo, pergunta pra um, que rebate pra outro, que rebate pra outro…e você fica ali à mercê da bondade e paciência alheias. Desagradável.

Alguns podem pensar “ah, mas tem que se esforçar“. Concordo!! Tanto que fiquei na sala onde todas as pessoas estavam do início ao fim da festa – e olha que já saí de fininho vááárias vezes na vida, rsrsrsrs. Tentei acompanhar as conversas, bati papo com quem estava mais perto, tentei entender a todas piadas, ri do que entendi, perguntei quando não entendi algo que me interessava… Enfim, fiz o que pude. Mas, no final, em vez de acabar com a sensação de dever cumprido, acabo sempre com uma sensação de desconforto, por ter me obrigado a fazer algo que não gosto de fazer.

Quem foi mesmo que disse que “a cegueira nos afasta das coisas, a surdez nos afasta das pessoas“? Helen Keller? Estava certa!!

Quem se anima a me contar nos comentários como lida com esse tipo de situação?