Relatos de Pessoas com Deficiência Auditiva

Uma fonoaudióloga com deficiência auditiva – e que usa aparelhos auditivos!!!

samira mel

 

“Olá, leitores do Crônicas da Surdez!

Com alegria recebi o convite da Paula, para compartilhar parte de minha história. Portanto: eis-me aqui! Sou Samira C. Baus Dutra. Feliz brasileira! Certidão de Minas Gerais, e criação na Ilha de Santa Catarina! Gosto de sorvete, cinema, pizza com amigos, refeições a beira do mar, jogar imagem & ação (mímicas, sou fera! hahaha), internet e… uma boa mensagem de fé e esperança! Da família paterna, herdei a perda auditiva progressiva. Sim, nasci ouvinte, e com o decorrer da idade, fui perdendo audição (ou seja, minha perda auditiva, de períodos em períodos,  aumenta).

Tenho a Fonoaudiologia como VOCAÇÃO. Busquei especializar-me em AUDIOLOGIA (diagnósticos audiológicos; adaptação de aparelhos auditivos e sistemas de comunicação). Antes da minha formação, tive todo um acompanhamento otorrinolaringológico e audiológico para a detecção da perda auditiva. Agradeço a todos os envolvidos nesta etapa, senti e recebi zelo e muitas orientações (tenho em quem me inspirar!).

Como assim? Fonoaudióloga e com perda auditiva???

A indicação para minha saúde auditiva não foi medicação e nem cirurgia. Para meu tipo e grau de perda auditiva, a indicação médica foi fazer uso de aparelhos auditivos (e estou nesta, há 11 anos). Com o passar dos anos, tornei-me paciente de mim mesma. A tecnologia me acompanha desde então. Iniciei com a mais simplificada, e atualmente, utilizo o que há “de ponta” (melhor)! Eu mesma programo meus aparelhos auditivos. Sinto “na pele” limitações pela falta de “ouvir, mas não entender”. Sinto também, os benefícios dos meus aparelhos. Usufruo de seus recursos, conforme minhas necessidades comunicativas.

Sinto-me bem usando os aparelhos auditivos. Sinceramente, ao longo do dia, esqueço que estou com eles. Eles fazem parte de mim! Assim como meus óculos (há 1 ano iniciei o uso para leitura -papel e computador – e assistir televisão). Coloco-os pela manhã e retiro antes de dormir. Já usei o modelo microcanal (CIC) e atualmente uso o com receptor no canal (RIC). A potência desde meu primeiro par até agora, aumentou, e bem! Estou ficando cada vez mais “surda”. Porém, como estimulo meu PROCESSAMENTO AUDITIVO há anos, tenho um bom reconhecimento de fala;  ou seja, cérebro ativado e sempre trabalhando (nada de ficar ocioso)! Quem tem perda auditiva e não usa aparelhos ou a quantidade ideal (um aparelho para perda em uma orelha; dois aparelhos para perda nas duas orelhas), nem imagina o bem que deixa de fazer pra sua atenção, percepção e memória auditiva.

Algo que a Paula me perguntou, foi: “o que ser uma fono usuária de AASI mudou a tua maneira de lidar com teus pacientes?”. Posso dizer que transformou meu olhar clínico. Então, como me sinto atuando com pessoas com limitações auditivas, sendo que eu tenho também tenho as minhas limitações auditivas?

A dedicação aos estudos em Audiologia, e minha experiência como deficiente auditiva  ajudam-me a “ENXERGAR e COMPREENDER” algumas posturas e sensações que a pessoa com perda auditiva tem. Claro que a maioria, se não todos os pacientes, são preocupados com a estética, com sua aparência. Geralmente ao receber o diagnóstico da perda auditiva a pessoa passa pelo período de NEGAÇÃO (“eu não preciso”; “não quero usar os aparelhos”; “todos verão que uso aparelhos”). Eu penso em conciliar com a discrição e eu sou um exemplo de que a vida continua; e segue com os aparelhos auditivos como acompanhantes.

Dias atrás relatei a um paciente: antes de usar aparelhos auditivos, quando eu abria uma bala na igreja, percebia que várias pessoas olhavam pra mim. Eu pensava, “nossa será que todos querem minha balinha”??? Já usando os aparelhos, fui repetir a cena. Quando comecei a mexer no papel para abrir, percebi como o barulho não era nada discreto, e concluí: as pessoas olhavam pra mim, pois eu estava sendo “barulhenta”. Hahaha

Um dia na aula (no último ano da graduação foi quando coloquei meu primeiro par de aparelhos), eu viro pra minha colega: “que som é este”??? Ela: “som?? Ah, começou a chover”! E eu saí da sala para olhar e ouvir a chuva. Foi então que eu disse a mim mesma: “Samira, este é o som da chuva”. Fiquei emocionada naquele dia. Eu não escutava mais o som da chuva. (voltei pra aula rapidinho, viu pessoal!!! hihi)

Uma bela noite eu experimentei dormir com os aparelhos auditivos. Alguns pacientes me disseram que dormiam com os aparelhos (moravam sozinhos, precisavam ouvir o despertador/campainha/telefone). Fui vivenciar na pele, ou melhor, ouvidos. Para mim, foi uma experiência nada confortável a qual não repeti desde então. Não consegui “desligar-me” do mundo externo, isto é, deitei-me e ouvia: som de caminhões/carros passando na rua; vizinhos conversando (em alto som). Imaginem se consegui pegar no sono logo: nada disso! Demorei! Definitivamente, uma vantagem em dormir, é poder tirar os aparelhos e ficar em modo OFF! Aí sim, pego no sono rápido. Portanto, com base em teoria e experiência própria, eu não recomendo dormir com os aparelhos auditivos. Durante este momento, as orelhas vão “arejar”. Evita-se que movimentos no travesseiro/cama, machuquem as orelhas e /ou danifiquem os aparelhos.

Compartilho um atendimento recente. Paciente jovem, concluiu o mestrado neste ano. Ficou aproximadamente 1 hora conversando ao celular (para quem usava celular prioritariamente com SMS, foi um ótimo resultado!!!!). O recurso tecnológico foi bluetooth integrando aparelhos auditivos com o celular.

Pra finalizar, agradeço aos pacientes por depositarem a confiança em meu trabalho. Sei que o fato de eu ter a perda auditiva cria um link entre nós. E tenham a certeza que vocês estão sob os cuidados de quem ama o que faz. Amo quem sou! A frase “ama ao próximo como a ti mesmo”;  me remete a eu tratar o outro  tão bem quanto eu desejo o bem pra mim. Quem não quer o bem a si mesmo??

E você, se ama? Tem cuidado de si com o devido zelo?

Grande abraço a cada leitor, e claro, pra você, Paula!!!”

PS: a Samira trabalha na Audire, revenda da Siemens que fica em Florianópolis. Gente, eu acho IMPORTANTÍSSIMO que as clínicas que vendem e adaptam aparelhos auditivos em pessoas com DA tenham um profissional com deficiência auditiva. Ele pode dar outra visão, para toda a equipe, sobre como o paciente que tem DA se sente – além do mais, deve ser sensacional conversar sobre aparelhos auditivos com alguém que os usa no dia-a-dia e sente na pele essa emoção.