Parece que foi ontem que eu tocava na parte raspada da cabeça pensando ‘que diabo é isso que fui me meter a fazer, meldels’. O tempo passa, e a reviravolta que minha vida deu desde a época da cirurgia é algo até difícil de assimilar. Tem dias que parece que foi ontem, tem dias que parece que fiz há dez anos. No meu primeiro aniversário de renascimento, 11/11/2014, posso dizer que me considero outra pessoa desde que tive o privilégio de voltar a ouvir através da tecnologia. A vida tem outro sabor, os acontecimentos mais banais têm outro significado e mergulhei numa viagem de autoconhecimento que nunca imaginei que existisse.
Esse primeiro ano foi de deslumbramento, cansaço emocional e muita adaptação. A família precisou se adaptar à mim (outra vez, afinal, passaram anos se adaptando à alguém que não ouvia e precisava de muitas ajudas e cutucadas), eu precisei tentar compreender quem era essa nova criatura ‘ouvinte’ e também precisei de muito esforço, paciência e sangue frio nas vezes em que tive problemas com a programaçã do IC. Já escrevi diversos posts contando que nem tudo são flores, mas o resultado final compensa e muito.
Decisão importante: parei de fumar. Eu não era fumante inveterada, mas fumava dois cigarros em dias bons e o triplo em dias ruins. Comecei a notar que os dias em que ‘esquecia’ de fumar minha língua era outra, totalmente diferente dos dias em que fumava. A minha fono fez um comentário que me botou pra pensar: “Paula, não coloca toda a conta dessa língua no implante.” Estou há cinco dias sem cigarro e finalmente sinto meu paladar melhor, minha língua quieta e a sensação de desconforto e de língua ‘viva’ e formigante sumiu. Ou seja…
A evolução das minhas audiometrias me deixa com um sorrisão. A primeira é do exame pré-IC: nas frequências importantes para entender a fala humana eu só ouvia a partir de 110DB em julho de 2013. Logo após a ativação, já estava na faixa dos 30DB, alguns meses depois subi em algumas frequências para 20DB e agora em novembro fiz outra audiometria. Ela mostrou uma piora na faixa de 250Hz, mas isso tinha a ver com a programação do meu IC, para evitar os temidos “rrrrr” com os quais tanto sofri. Além do mais, essa frequência (de sons mais graves) não faz muita diferença para inteligibilidade de fala, e, nas que efetivamente fazem, tive mais melhora! Quando é que imaginei que um dia ouviria algo na faixa dos 15DB, gente? Nunca! E cá estou, vivenciando isso. 🙂
Um ano depois da ativação do meu implante sinto que recém comecei a aprender e a entender o que significa, de fato, me comunicar. Primeiro, fiquei muito focada em ouvir e entender, mas agora acho que passei para o patamar ‘comunicação’, que é muito mais do que isso. E mais difícil, também, porque ouvindo você não pode se safar das conversas e dos sentimentos que vêm à tona ao ouvir certas coisas. Comunicação é saber o que você quer de fato dizer, como seu interlocutor vai receber essa informação, qual a dinâmica que isso vai criar entre vocês e de que maneiras você pode se comunicar melhor. Passei a vida achando que o silêncio era a melhor resposta, que para não causar atritos e mal entendidos a gente devia optar por não dizer tanto o que sente e pensa, e posso dizer que agora comecei a repensar todos esses fatos que eu tinha para mim como grandes verdades imutáveis. Ouvir é tarefa fácil perto de conseguir comunicar para os outros tudo aquilo que está dentro de você.
Último acontecimento que vale a pena contar foi um singelo barraco que precisei fazer no Carrefour, pois comecei a receber cartões e seguros não solicitados daquele mercado. A moça que me atendeu com cara de tédio me levou até um telefone numa área mega barulhenta do mercado (que são barulhentos pra valer, com anúncios de alto falante o tempo inteiro, o barulho dos carrinhos de compras, mil pessoas falando, maior burburinho) e me mandou falar. Tentei, mas o som era muito baixo e com a barulheira toda, não rolou. Pedi que ela falasse por mim. Ela disse que não podia. Mostrei meu IC e pedi encarecidamente. A criatura insistiu que não podia fazer nada. Aí foi pro telefone e dez minutos depois me volta com aquele maldito ‘0800 para deficientes auditivos e de fala’. Perguntei se no Carrefour eles tinham telefone TDD, e claro que não tinham. Disse que em casa também não tinha e que não fazia milagres. A fofa continou dizendo que não podia fazer nada até que eu me alterei e pedi que chamasse a gerente geral – que surgiu do além e resolveu meu problema em 2 minutos.
A pessoa que inventou esse ‘0800 de deficientes auditivos e da fala’ prestou o maior desserviço da história da humanidade a todos os surdos. Acessibilidade precisa estar disponível 24hs e não pode te obrigar a comprar um equipamento caro e inútil. Em Santa Maria, por exemplo, o único telefone TDD que já vi está lá no aeroporto, abandonado. E seria o fim da picada ter que ir até o aeroporto para resolver algum pepino com internet, 3g e toda a tecnologia acessível e até grátis existente hoje. Taí uma boa pauta para os deputados que defendem a causa deficiência, mas atitude que é bom, não vejo nenhum tomar.
Nas fotos acima, eu estava no EIFONO da Universidade Federal de Santa Maria dando uma palestra, a convite da professora Dra. Michele Garcia (comigo na penúltima foto e a pessoa que me disse em 2010 que eu deveria fazer um IC quando eu nem sabia direito o que era isso). Se tem algo que AMO fazer é falar sobre reabilitação auditiva para quem é tão apaixonado pelo assunto quanto eu. E qual público poderia ser melhor do que estudantes de fonoaudiologia? Chamo as gurias de ‘fonecas’, pois elas parecem umas bonecas de tão lindas e mimosas. E confesso que fico me sentindo a Xuxa, porque no final me chamam pra tirar mil fotos e depois passo horas ‘roubando’ todas no Facebook. Já temos até uma foto tradicional: várias sobem as escadas e tiramos juntas fazendo a pose de mão no ouvido no melhor estilo “Ouvir é tudo de bom!”
2014 foi um ano marcante e não sei qual será capaz de ser mais inesquecível do que ele, nem quais são as outras surpresas que a vida me reserva mas sei que foi em 2014 que senti que estava recém começando e que eu tinha algum poder sobre ela. Algumas mudanças nos desestruturam, mas é na bagunça e na reconstrução que a gente se acha. Tem sido assim comigo. Um ano depois, gosto mais de gente, me sinto milhões de vezes mais confortável conversando com as pessoas – mas meu limite de tolerância para gritos, berros, falação e muito barulho é ainda menor do que era antes do IC. Em vários momentos de interação percebo que meu corpo pede para sair dali para ir sossegar num ambiente tranquilo. Obedeço, porque dos nossos próprios limites, só nós entendemos.
Conversei rapidamente com uma amiga que na época do colégio era unha e carne comigo. Ela também fez IC, caso de surdez pré-lingual. Perguntei se preferia a vida com ou sem som e a resposta foi enfática: “COM, CLARO!”. E falamos sobre aquele baque emocional do qual é impossível escapar ao ganhar a capacidade de ouvir de volta. Você coloca a vida inteira em perspectiva e tenta entender de uma maneira racional porque precisou passar por tudo o que passou, de onde tirou força para lidar com anos e anos de privação sonora, de isolamento, de solidão. Já escrevi muito sobre isso aqui no blog. Esse baque me tornou mais forte e me permitiu me conhecer de um modo que talvez eu só conseguisse com anos e anos de terapia.
Dia desses, relendo o primeiro livro, vi que no final escrevi que imaginava como seria ter uma audição perfeita e disso vinham duas imagens: estar deitada à noite vendo as estrelas, ouvindo música e entendendo a letra e sendo uma tradutora poliglota capaz de se comunicar em outras línguas com desenvoltura. Um ano depois, realizei esses dois sonhos – ok, não sou tradutora poliglota, mas ouvir e entender a fala em outras línguas é a maior delícia de todas as delícias. Minha audição biônica não é perfeita e nem eu almejo perfeição porque isso não existe, mas ela me proporciona coisas até pouco tempo inalcançáveis.
Falo no telefone, ouço até o que não queria, perdi o medo de ficar em casa sozinha, perdi o pânico da expectiva de “ai vai tocar o interfone“, “ai, vão bater na porta“, só uso leitura labial em casos extremos e o melhor: posso fazer alguma coisa enquanto alguém fala comigo e dizer “vai falando que tô te ouvindo“. Semana passada estive numa palestra em que a palestrante comentou que era péssimo falar com pessoas que não nos olham enquanto falamos. Comentei que passei tantos anos vidrada nos rostos e nas bocas dos outros para poder me comunicar que hoje um dos meus maiores prazeres é NÃO olhar para a pessoa enquanto ela fala comigo. Aí ela disse que minha atitude tinha a ver com o fato de que olhar para os olhos/bocas me remetia à uma época de sofrimento, e por isso eu evitava fazê-lo. Acho que faz sentido.
Obrigada, de todo o meu coração, a cada um de vocês que acompanha essa jornada desde o tempo em que o implante coclear era uma mísera idéia que eu tinha na cabeça. Todas essas ‘pensatas’ só foram possíveis porque vocês estavam por aqui lendo, dando opinião e compartilhando as suas vivências comigo. Que bom que somos essa grande turma! 🙂









