“Oi Paula, sou a Ana Letícia. Fiquei muito feliz em participar do evento de implante coclear e conhecer mais sobre o assunto! E mais feliz ainda de conhecer você, queria ter ficado mais pra conversar, mas eu tinha que embarcar pra Petrópolis!
Na verdade queria te trazer pra Petrópolis comigo, tipo um chaveirinho pendurado na mochila! Conheci o Crônicas há pouco tempo, há uns 2 meses atrás. (esse post foi escrito em 2020)
Foi quando resolvi buscar por um aparelho auditivo melhor, e na consulta com minha fono ela me apresentou o blog. Em relação ao Implante conhecia pouco, e minha Fono me apresentou essa tecnologia, me incentivando a pesquisar a respeito. Se preparem que agora vem textão, quero te contar um pouco a minha história!
Não vou saber contar muito o momento em que adoeci.
Eu tinha 1 ano e meio e meus pais falam que não ficou muito bem estabelecido o diagnóstico, se foi meningite, encefalite ou uso inadequado de antibiótico.
Mas ultimamente me cresceu uma vontade enorme de ir atrás dos prontuários e buscar toda a minha história. Minha audiometria revela perda neurossensorial profunda em orelha esquerda e severa em direita. Quando adoeci parei de andar e falar, e com o apoio dos meus pais e meu irmãozinho gêmeo fui voltando aos poucos..
Bem, os médicos diziam que seria muito bom que eu interagisse com outras crianças, e iniciou como terapia a escola. Como eu era muito pequena, minha mãe se voluntariou na escola para ficar perto de mim, e começou a fazer teatrinhos, fantoches e contação de histórias.
Por ela ter despertado esse lado artístico virou escritora e sempre incentivava a leitura. Eu e meu irmão não éramos aquelas crianças que queriam brinquedos e mais brinquedos, nosso maior presente eram livros e mais livros.
Meu pai também me ajudou muito e talvez nem tivesse a noção de que estava ajudando através da música. Ele sempre gostou de cantar e tocar violão, e tenho certeza que a cantoria foi fundamental na minha recuperação. Eles cuidaram e fizeram tudo que podiam por mim.
Fiz terapia com psicólogos e tratamento com fono. Não sei exatamente com quantos anos (acho que perto de 5 anos) coloquei meus primeiros aparelhos auditivos nos dois ouvidos, mas não fazia efeito no ouvido esquerdo. Mesmo assim usei um tempo. O apoio e amor da minha família foi fundamental na minha vida e recuperação. E por isso, sou muito grata a eles.
Minha infância e adolescência foram relativamente tranquilas, não escondia minha surdez e sempre falava com as pessoas em volta, colegas e professores.
Lógico que eles tinham que repetir várias vezes a mesma coisa quando eu não entendia, e muitas vezes ficava sem entender e deixava pra lá mesmo. Na escola, não tive dificuldades, sempre sentava na frente e lateral, aprendia com facilidade a matéria.
Só uma curiosidade na infância e adolescência, sempre que assistia televisão só pegava uma parte do desenho ou novela. Passava uma novela inteira sem saber o nome do personagem às vezes, mas quem criava a história era eu. Através das cenas, minha imaginação sobre o que o personagem falava estava a 1000 por hora! Imagino que muitas crianças devem fazer isso e ninguém à sua volta percebe.
Mas a minha queixa mais forte era: “Mãe, estou sempre excluída, não tenho amigas”. Sempre chegava em casa chorando. E olha que isso não passou, até hoje tenho esse sentimento de solidão, que é o meu maior sofrimento.
Não podia/posso ir a uma pizzaria, parque de exposição ou boate que voltava/volto chorando, exceto quando estou com minha família e namorado que é super atencioso comigo.
Sempre achei melhor me isolar e ficar calada, porque hora que eu abri a boca para falar alguma coisa o assunto sempre estará lá na frente, ou vou falar alguma bobagem que não tem nada a ver com o assunto, ou porque não estou escutando absolutamente nada (não sei nem sobre o que estão falando numa roda de conversa).
Por mais que a gente se esforce e peça mil vezes para as pessoas repetirem, a gente cansa. Quando entro no carro então, impossível conversar…
A gente ri quando todos riem, faz cara de espanto quando todos fazem, e só responde “verdade, aham, entendi” quando na verdade você não sabe nem sobre o que estão falando.
Além disso, o cansaço também vem de tanta leitura labial que fazemos, e hoje é muito difícil encontrar pessoas que conversem olhando para você, elas estão prestando atenção em outras coisas ao redor e fazendo várias coisas ao mesmo tempo, além de falarem rápido demais.
Quantas vezes por exemplo já fomos ao médico (ouvintes e não ouvintes) e eles mal olham no nosso rosto enquanto conversam. Mas é claro que não são todos.
Muitas vezes ficam a consulta inteira de cabeça baixa escrevendo tudo aquilo que você está dizendo, mas não precisava ser o tempo todo.Não vou julgá-los, cada um tem sua maneira, mas penso que independente do paciente (ouvinte ou não), e também em outros ambientes fora do consultório médico, devemos dar toda atenção à pessoa está à nossa frente, ouvir, olhar e evitar distração com outras coisas ao redor, ou seja, estar 100% presente.
Estar em grupo é sempre um sofrimento, engraçado como eu prefiro a solidão. É melhor ficar em casa sozinha do que sair com as pessoas, fazer um trabalho em grupo ou ir a lugares barulhentos como uma pizzaria.
Me sinto bem no silêncio, traz paz e se eu pudesse ficava 24h por dia sozinha. Mas não há como viver isolada e fugir das relações sociais.
E pra ser sincera, só agora estou descobrindo que isso tudo é por causa da minha deficiência. Eu achava que ela contribuía sim, mas achava que meu isolamento era por ser tímida e fechada demais e com muita dificuldade de conversar com as pessoas.
Mas só agora que conheci o Crônicas é que comecei a entender de verdade a surdez. Só agora estou descobrindo que as pessoas com deficiência possuem este mesmo sentimento. Mas ninguém merece viver triste e só né, estar em grupo não deveria ser tão ruim… Ainda bem que essas informações estão disponíveis para todos nós, para que possamos virar essa página. Sei que vou vencer este desafio!
Hoje, estou no meu 3º ano de Medicina, e também encontro algumas dificuldades na faculdade, e meu coração pede para me abrir (isto aqui está virando um verdadeiro diário).
A primeira coisa que queria te contar foi quando passei no vestibular. Estava tão feliz em ter tirado notão (tirei 940 na redação), mas não estou falando para esnobar, mas para que outras pessoas percebam que não somos incapazes de passar no vestibular de Medicina.
Foi uma vitória imensa! Eu passei como candidata à vaga de deficiente no Prouni, e no dia da entrevista, ao apresentar a documentação (inclusive laudo e audiometria), fui questionada pela “Médica” responsável que dizia que eu não era deficiente porque usava aparelho, assim como quem usa muleta também não é.
Na opinião dela, o laudo estava incompleto, e exigiu outro com a assinatura da médica reconhecida pelo cartório. Assim fizemos, e ao retornamos para a próxima entrevista ela continuou questionando a surdez e mandou o laudo para ser avaliado pelo advogado. Por fim, conseguimos. Este só foi o primeiro desafio. Logo, vieram outros…
Ao entrar na faculdade tive medos, não sabia como seria a partir daquele momento sem meus pais por perto. No 1º dia de aula levei minha mãe comigo para a faculdade, com medo de não escutar nada no auditório durante a recepção dos alunos, mas a acústica estava boa e consegui ouvir tudo (já que palestras exigem um esforço muito grande e se tiver eco piora muito).
Levei ela no trote também, pois havia tirado meu aparelho por precaução. Imagine o meu medo de ir ao trote, e ainda sem ouvir nada…
Aos poucos fui me adaptando a vida acadêmica, sempre sento na frente e ouço bem os professores. Só não dá para copiar a matéria e olhar para o professor ao mesmo tempo para fazer a leitura labial, por isso comecei a gravar as aulas e escutar novamente em casa, já que posso voltar quando não escutar bem, principalmente quando a aula é de um professor peruano que fala português, mas com sotaque carregado.
Dentro da faculdade, recebo muito apoio da psicóloga. Ela está sempre me ajudando, lembrando aos professores da minha deficiência e eles sempre me procuram perguntando se estou entendendo a aula, para perguntar sempre quando não escutar.
Eles só esquecem às vezes que preciso de vídeos com legendas. Mas as dificuldades de um deficiente vão muito além disso, são questões sociais, e do ambiente.
Esse ano por exemplo comecei a frequentar hospitais, que não são nada silenciosos… Algumas vezes tive dificuldade de conversar com pacientes por haver várias pessoas falando em volta, por barulhos da reforma do hospital, ventiladores ligados (e mesmo assim sempre aviso os pacientes para falarem mais alto).
Cheguei a fingir uma vez que estava ouvindo um paciente, e fingir estar anotando por um curto tempo, e depois me despedi dele para não ficar chato dizer: “Me desculpe, não consigo te ouvir por mais que peço para repetir, e por isso vou para o paciente ao lado!“. É uma situação extremamente desagradável, que cheguei a comunicar para o professor, mas o que ele poderia fazer?
Além disso, esse ano começamos a aprender a ausculta cardíaca e respiratória. Ganhei do meu tio um estetoscópio eletrônico que aumenta o volume, e para fazer a ausculta preciso retirar o aparelho. Para minha surpresa e alegria, consegui ouvir alguns sopros, mas outros não consegui ouvir, muito menos caracterizá-los.
É muito difícil saber as características de uma ausculta, se o barulho é Tum ou Trum, Tá ou Trá, se está baixo ou aumentado. Isso é essencial para um médico. E como os professores podem ajudar? Eles até tentam, passam áudios no computador, tem paciência para que eu possa auscultar por mais tempo, não me cobram ausculta na prova.
Mas e quando eu me formar e estiver no plantão sozinha, como vai ser? Apesar de não escolher essa área para me especializar, ainda me preocupo, pois até chegar na residência tem muita coisa para rolar, muitos plantões..
Minha professora já até me perguntou: ‘Como você vai fazer?‘ Sempre vou correr atrás, acompanhar médicos cardiologistas para treinar meu ouvido, e já estou me programando para fazer isto nas férias. Mas me pergunto, o que o sistema pode fazer por nós?
Parece que na faculdade a surdez começa a se destacar...O ritmo de faculdade é muito rápido, e você tem que acompanhar. As pessoas falam rápido demais, devemos prestar atenção em dobro para não perder nada. E além de ouvir, precisamos entender.
E o pior, mesmo assim você será a última a entender o que está acontecendo à sua volta. Sempre vai ter gente falando: “Ué, você não sabia isso? Tem que prestar mais atenção nas coisas!” Fora da faculdade também sempre vai ter: “Você não sabia que eles estavam namorando? Já faz 3 meses.. Tem que prestar mais atenção Ana”. Haja energia, é preciso ser um Superman!!
Mas nada disso é pior do que aconteceu comigo na faculdade ano passado. Estava no Posto de Saúde, e apareceu um paciente com muita cera no ouvido, estava escutando muito pouco e foi feita a lavagem. Como de costume, ao término do dia descemos para discutir com o professor sobre os pacientes do dia.
O comentário dele foi: “Uma vez, tinha um aluno surdo aqui no posto também e ele era chato pra caramba, ficava perguntando “Hã” toda hora”. Todos os alunos riram. E continuou: “Costumo sempre dizer que de cego a gente tem pena, e de surdo a gente tem raiva”. Eu fui segurando, mas não aguentei, chorava igual criança. Foi o pior sentimento que tive na vida.
Logo em seguida ele me chamou para ir até a sala conversar, esperou que eu acalmasse um pouco e disse: “Você não sabe o tamanho do problema que você me causou, agora todos vão achar que eu sou um monstro. Eu não estava dizendo isso com relação à você, não é possível que você está achando que sinto raiva de você. Ou então você tem alguma doença psiquiátrica para ficar chateada comigo. Me desculpa se eu te deixei chateada, mas eu nunca mais vou fazer essa piada, pelo menos quando você estiver perto”.
Chorei a semana inteira igual criança, pois tinha acabado de descobrir que as pessoas tinham “raiva” de surdo. E fui me encolhendo cada vez mais…
Eu podia ter comunicado à faculdade e a psicóloga ou ter processado, mas eu sabia que esse professor seria mandado embora na hora, e meu coração no momento não pedia isso.
Sofri muito, no início senti muita raiva (não vou mentir) mas aos poucos ela foi passando e o sentimento que eu tinha era apenas de pena, pois ele ainda precisaria aprender muito na vida, o problema não estava em mim. Meu coração pediu para perdoá-lo, era a oportunidade batendo na minha porta de crescer, amadurecer e dar mais um passo na vida. Ninguém disse que perdoar é fácil, foi uma “baita lição”.
Cada desafio é uma nova lição aprendida. Escrever este texto não foi fácil, mas o maior desafio é compartilhá-lo. Confesso que pensei por vários momentos, guardar esse texto só para mim, continuar na minha solidão, mas preciso vencer essa barreira!
E retribuir a você por todo o bem que tem me feito ao ler o blog e os seus livros. Muito obrigada!
Um grande beijo Paula!
Ana Letícia’
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VÍDEO: Cirurgião Surdo Que Ouve
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