Relatos de Pessoas com Deficiência Auditiva Deficiência Auditiva

A história de vida de L.: as dificuldades da surdez

nuvem

“Boa noite, Paula.

Descobri seu blog dia desses, por acaso. Comecei lendo os depoimentos e confesso que foi um verdadeiro alívio descobrir que não sou o único a se sentir isolado do mundo pela deficiência auditiva. Identifiquei-me com cada um dos depoimentos a seu modo. Foi aí que li sobre a sua história e senti um misto de admiração…e inveja! Mas chegaremos lá. Meu nome é L., sou de Belo Horizonte, tenho 28 anos e uma perda neurossensorial bilateral progressiva.

No nível médio do colégio comecei a perceber minha perda auditiva. Teve um dia específico que me marcou muito: a professora de biologia me fez uma pergunta e eu não sabia a resposta. Então ela pediu para outra aluna ler a resposta que estava no manual da matéria. Eu não entendi uma palavra do que a menina leu e a professora, em uma dessas conspirações do universo, pediu para que eu repetisse o que ela havia acabado de falar. Fiquei todo encabulado e falei que não havia entendido o que a menina tinha falado. A professora pediu para ela ler uma segunda e uma terceira vez sem que eu conseguisse entender! Imagina para um adolescente o pânico que não foi! Bom, bullyings à parte, consegui sobreviver sem o aparelho, porque minha perda não era tão grave. Digo, certamente deixei de ouvir muita coisa, mas penso que o trade-off foi justo. Perdi algo, mas evitei de ser alvo de chacotas no momento mais crucial para a formação de minha autoestima (apesar de não haver motivos para se debochar de um deficiente auditivo, infelizmente essa ainda é uma realidade nas nossas despreparadas escolas).

Terminado o colégio prestei vestibular para o curso de direito da UFMG e o concurso de bancário para o cargo de escriturário no Banco do Brasil. Passei nos dois. Nisso a audição já ia se deteriorando. Tive diversos problemas no banco por conta da minha audição, desde o temido telefone (que foi se agravando ao ponto de hoje ser praticamente inaudível)  até atos que foram prontamente identificados como de insubordinação, como o de não escutar o chefe, dar as costas e passar por desaforado! Mas meu santo é forte e, entre percalços, sobrevivi ao banco, no qual estou até hoje, como caixa-executivo.

Na faculdade não tive a mesma sorte. A contagiante alegria juvenil da qual era alijado no dia-a-dia, especialmente pelo fato de as conversas serem muitas vezes em grupo, me fez um mal ao qual sucumbi. Faceta cruel da perda auditiva é que os momentos que eram pra ser de alegria e descontração se tornam calvários. Fiz várias amizades, as quais afastei de mim, com medo de que descobrissem minha deficiência. Tranquei a faculdade no 6º período na esperança de que eu entraria em uma turma diferente e permaneceria invisível nessa nova turma, vez que ninguém me reconheceria. Tentei, mas a tensão do intervalo, quando as pessoas começam a conversar umas com as outras, momento no qual elas podem descobrir seu “segredo”, me fez abortar minha formatura. Assim, simplesmente não fiz a matrícula para o 8º período do curso.

Resultado: fui jubilado do curso. Nesse ínterim ocorreram alguns momentos “barra” no que concerne a minha saúde auditiva. 1) Em uma bela manhã de 2006 acordei sentindo estalos (não sei se a palavra certa é essa, mas é a melhor que consegui encontrar)nos ouvidos, especialmente no esquerdo. Sei que é algum problema com pressão, os médicos sabem, mas ninguém sabe a causa, nem a solução. Isso já me deixou muito pra baixo. 2) Pouco depois o bendito zumbido se infiltrou na minha vida. Do mesmo jeito, dormi bem e acordei ouvindo um apito, que me acompanha até hoje. Esse me deixou muito arrasado por um tempo, mas surpreendentemente o superei bem. Convivo com ele numa boa, afinal, nem me lembro de como é não ter zumbido!

Mas, sei que tem pessoas que sofrem verdadeira tortura psicológica por conta do zumbido. Eu mesmo já quase fui levado às raias da loucura. 3) Um outro momento impactante nessa época de faculdade foi quando eu resolvi “sair do armário” e usar um aparelho. Um colega, que até então eu tinha como amigo, me perguntou o que era e eu expliquei. Ele deu uma bela gargalhada e se afastou de mim. Foi o suficiente para que eu chegasse em casa pronto pra jogar os aparelhos no ralo. Paula, quando você diz que temos de ter maturidade para usarmos aparelhos e nos assumir você não está mentindo…

Fui me apequenando. De um jovem convicto de suas ambições fui me transformando em um funcionário acomodado. E outra, passei a beber horrores. No mais das vezes sozinho, sonhando com um mundo de riquezas, no qual eu ouvia. As pesquisas de células-tronco resolveriam meu problema e nisso eu já estaria milionário com a bolsa de valores. Sei que parece loucura isso, mas é assim mesmo que eu passei a funcionar depois de largar meu curso. Passeis a fazer racionalizações que me permitissem continuar sobrevivendo. Abandonei o presente – e por que não, a vida? – em função de um sonho, que certamente jamais viria a se concretizar, pois eu não o permitiria. Afinal, o sonho era mais importante que a vida real. Uma imagem, um som, um momento, que só existia na minha cabeça. E quanto mais eu bebia, mais lúcidos ficavam esses sonhos.

Vivi momentos pessoais delicadíssimos no ano de 2008, como uma longa internação de minha mãe na UTI por conta de uma infecção urinária que havia se generalizado, o suicídio de um dos meus (poucos) melhores amigos e a quebra da Bolsa que consumiu todo o meu capital. Ainda saí da banca devendo, tamanho o desvario que já havia tomado conta de mim. No auge da crise financeira eu bati meu carro no de um taxista e o seguro não cobriu o dano em meu carro, tampouco o do carro do taxista pelo fato de eu estar embriagado. Lá se foi um baita prejuízo, a realização de ativos financeiros em meio a um dos piores momentos da história da Bovespa pra bancar os dois veículos, posições essas que eram de longuíssimo prazo. Ao menos ninguém se feriu. Passei a manhã em uma cadeia da polícia civil no DETRAN. De lá fui para o IML, fiz o exame clínico e voltei para casa. Minha primeira providência foi abrir uma lata de cerveja para espécie de meus pais. Ali eu já não estava atinando para mais nada….

Fato é que alguns anos se passaram em meu longo período de negação, no qual já era incapaz de conhecer pessoas novas, puxar papo com alguém e sair do meu casulo. Sempre que me metia em novos relacionamentos era um pesadelo. Não escutava o que a pessoa falava e já começava a ficar com fobia de falar novamente com a pessoa. Tive uma namorada de uma cidade próxima a BH e íamos para lá todo final de semana. Não entendia uma palavra que a mãe dela falava e sempre ficava com cara de árvore. Foi um verdadeiro alívio quando terminamos. E, por mais de uma vez, essas situações aconteceram…

Não obstante, sempre fui excelente funcionário, razão pela qual sempre gozei de respeito e boa autonomia no meu trabalho. Em 2011 tive três starts dentro da empresa pra sair daquela loucura que há muito se apossara de mim: 1)conheci um procurador estadual que compartilhava o mesmo “drama” que eu. Foi uma pessoa muito importante, que me lembrou que somos maiores que nossos problemas. 2) lembrei de um colega meu de banco que estudou comigo na UFMG e confesso que tive a curiosidade de ver o que ele estava fazendo da vida.

Tinha passado em um concurso muito bom na área do direito. 3) Outro ex-colega de banco e UFMG (sim, são muitos!), que nem desconfiava de meu “segredo”, foi por mim  atendido e também havia passado em um concurso e me perguntou: “e você, estancou ma vida, é?” Confesso que não fiquei com raiva. Sim, eu havia ficado pra trás na vida e ia cegamente caminhando para o buraco dentro de um sonho, alheio ao mundo real. Aquilo mexeu comigo, foi a gota d’água. Fiz vestibular às pressas em uma faculdade privada, fui aprovado e em pouco tempo estava assistindo às aulas. Assumi outra postura, sentava na primeira carteira pra conseguir ouvir tudo, não matava aulas (prática reiterada na UFMG, com o intuito de evitar contato com os colegas e me expor) e também não conversava com ninguém, pois continuava não escutando nada e ainda muito resistente à ideia de comprar um aparelho, sempre lembrando do meu “amigo” que havia caçoado de mim.

Em função disso acabei fazendo pouquíssimos laços de amizade na faculdade, sendo os mais fortes com os professores. Tudo isso pela falta de maturidade de assumir a necessidade de utilizar AASI. Mas concluí o curso com louvores, que foi encarado como deveria ter sido. Decidido a dar continuidade aos meus projetos, que a dada altura pareciam sepultados, tão logo concluí minha graduação (julho de 2013) tirei três meses de folga dos estudos e voltei a pegar pesado com a expectativa de, em breve, ser aprovado em um concurso dentro da minha área. Amo o banco, que me deu tudo e sempre esteve presente em meus anos de delírio, mas é hora de retomar meu foco, minha decisão está feita e é ótima a sensação de ter acordado de um sonho e estar vivendo…porém continua havendo um grande elefante dentro da sala e já não dá mais pra fingir que não está lá. Para acordar de verdade eu percebi que preciso encarar esse elefante.

É aí que você entra, Paula. Apenas recentemente tive contato com seu trabalho e foi emocionante. Devorei todo o material em pouquíssimo tempo. Seu livro só me fez ficar com gostinho de quero mais de tão cativante a leitura! Daí minha admiração pela sua entrega, pela sua aceitação transcendente da condição de deficiente. Pra mim você é um mito, Paula. E daí minha inveja! Honestamente, você está alguns degraus acima de nós, mortais, pra tratar tão francamente desse problema, sem se furtar do problema. Assumir-se e ser feliz com o pouco que Deus nos dá é pra poucos. Chega a ser assombroso. Pelo lado positivo, isso serve de estímulo pra mim. Eu imagino que com uma boa dose dessa luz que te banhou eu possa adquirir um pouquinho da sua maturidade um dia!  Sim, Paula, você é exemplo de vida. Olha, não me leve a mal, mas muitas vezes eu me surpreendo olhando para suas fotos e me perguntando se é possível que alguém tão novo, praticamente da minha idade, tenha conseguido chegar a um nível tão alto de abstração. Você é a luz de muitas pessoas, Paula. Fazer o que você faz é algo pra encher qualquer ser humano de orgulho. Você efetivamente faz do mundo um lugar menos doloroso pra se viver.

Por fim, graças a você resolvi sair (pela segunda vez!) do armário em relação ao verdadeiro empecilho para minha felicidade e comprar meus AASI’s. Estou em fase de testes com o Pure, mas aparentemente o ideal pra mim será o Motion. Minha perda é em rampa, de modo que meus graves são preservados e meus agudos deteriorados, logo, o mais indicado seria o receptor próximo ao microfone, sob pena de microfonia por conta de a amplificação se dar só nos agudos, problema que estou enfrentando com o Pure. Testarei algumas outras marcas, pra me assegurar que estou fazendo o melhor negócio, o que melhor atenda às minhas necessidades de saúde e não de estética (e, acredite-me, isso é muuuito doloroso), no que devo mais uma vez agradecer a você pelas asserções incisivas que você coloca no seu livro. Ainda não é fácil aceitar os AASI’s, mas é uma decisão que tive de fazer e não há mais volta.

Agradeço de coração a você, Paula. É uma pessoa única e muito especial que apareceu em minha vida. Nunca me abri tanto como nessa carta com ninguém. Estou fazendo terapia e diminuí consideravelmente o nível de álcool da minha vida. Enfim, o processo de crescimento e amadurecimento, que passa pelo nosso autoconhecimento, está em curso e você foi mais um trigger desse processo. Afinal, alguém havia dito que devemos viver com a deficiência e não em função desta =-)

De alguém eternamente grato a você,

L.”